VPV

em Opinião

Vasco Pulido Valente, além de brilhante historiador, é dono de cultura profunda, multifacetada e escreve bem. Se duvidarem comparem os seus escritos no extinto Almanaque e os recentes. Uns e outros, separados por mais de cinquenta anos de diferença, revelam as mesmas bases de ironia, até de sarcasmo, num desenovelar do novelo de natureza social, seja a abordar as causas e consequências de determinada posição política, seja ainda a defenestrar enfatuados presunçosos porque durante algum tempo montaram o cavalo do poder.

Obrigatoriamente, leio os textos dele, corrosivos ou não, mesmo os menos certeiros no alvo a atingir, algo fica a justificar reflexão, a guardarmos na arca da memória, até no intento (muitas vezes conseguido) de constatar o ter sido injusto ou demasiado abrasivo relativamente a vários actores e actrizes do palco político português.

Nos últimos tempos, aparece nos jornais na condição de notícia, maleitas várias o têm apoquentado, e, porque deu à luz a um livro que nos permite apreender as derivas do fim do regime monárquico e a madrugada republicana. Os fragmentos de o “Fundo da Gaveta” revelam as fragilidades políticas da época, não escapando nenhum nome saliente nesses conturbados anos.

As fotografias anexas às entrevistas mostram VPV emagrecido, de barba enegrecida e canosa, olhos salientes, cigarros fumegantes, de língua afiada a zurzir e a elogiar, Rui Rio é zurzido, António Costa é elogiado a ponto de o considerar competente director-geral!

O fundista de “O País das Maravilhas”, num primeiro relance às suas últimas entrevistas, deixa a impressão de estar a despedir-se do comentário político preferindo os temas sociais, incluindo o futebol, mas enquanto viveu nas proximidades do Estádio da Luz barafustava acrimónias contra os clamores vitoriosos das águias, agora a viver nas proximidades da Almirante Reis até se dá ao luxo de nos oferecer opinião acerca do ora conhecido Bruno Carvalho. Quem diria!

Felizmente, para os seus leitores, destapa ângulos escondidos do nosso comportamento no decurso dos anos, desde a febre jornalística na mediação das notícias colocando nas parangonas os seus preferidos, atirando para a fossa os depreciados, até à chusma de comentaristas e analistas, não esquecendo a nossa tendência para o recreio. É verdade, entre o cumprimento das obrigações e a moleza brincalhona, venha a sorna estival ou não. Faz-nos falta VPV fundibulário, historiador, cronista. Faça o favor de se restabelecer. Precisamos de si. Acredite.

Armando Fernandes

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