Este grito de guerra é de lá, não é de cá

em Opinião

“Os Silêncios da Guerra Colonial”, por Sara Primo Roque, Edições Pasárgada, 2017, retoma a inesgotável questão do stresse pós-traumático no vastíssimo contexto dos silêncios e no propósito de “desocultação” das suas principais manifestações: desvelar as estruturas da sociedade portuguesa e o silêncio que impendeu sobre a guerra colonial, no antes e durante, em que constituiu a guerra colonial nas três frentes; o regresso e as recordações, o peso desmesurado desses silêncios, o testemunho das mulheres e familiares desses stressados, que portas urge abrir.

Sara Primo Roque começa por nos recordar que os mortos e deficientes eram praticamente ignorados pela comunicação social, constavam tais notícias em doses mínimas e nos espaços mais discretos dos órgãos de comunicação social, havia notícias necrológicas sumárias e nada mais. Esta cultura do silêncio resultava de uma terminologia montada pelo próprio regime: as nossas forças armadas policiavam, não faziam guerra, apanhava-se material aos guerrilheiros e era exibido, fazia parte do policiamento, aquelas imagens de militares pelas picadas e no mato obedeciam à lógica do policiamento, eram meramente defensivos. Esta estratégia discursiva, em permanência, ocultava e silenciava, não havia necessidade de se exibir o resultado do que faziam aquelas centenas de milhares de homens que, segundo o estribilho do regime, também participavam na defesa da civilização ocidental ameaçada pelo comunismo.

A investigadora sumaria a evolução da guerra, foi pena não ter pedido colaboração a alguém para a revisão científica, há para ali erros irritantes puramente desnecessários. Um só exemplo, Amílcar Cabral não morreu em Julho de 1973, morreu em Janeiro. É apropriado o pano de fundo baseado na grandeza imperial, no império que durava há cinco séculos, era como se fizesse parte integrante da nossa identidade, da nossa cultura e da nossa intemporalidade. A partir do momento em que se recusou dar independência ou negociar qualquer tipo de transição nas colónias, os ataques selváticos do Norte de Angola deram o mote e a legitimidade para uma guerra que se supôs limitada, dava-se a justificação de que jugulados os focos terroristas o Portugal de Minho a Timor voltava à normalidade, até lá funcionava a retórica do amor pátrio, defender o que era nosso, um superego foi posto em movimento com recurso à ocultação, à propaganda e à censura. As mulheres não ficaram de fora desta vibração patriótica, lembre-se o Movimento Nacional Feminino e as madrinhas de guerra bem como o serviço de visita a feridos pela Cruz Vermelha Portuguesa.

Os silêncios decorriam do regulamento imposto à correspondência: nada de mensagens sobre a guerra, nada de afligir as famílias, falem de saudades, das coisas que há a fazer lá na terra, perguntem pela saúde dos entes queridos, não falem de operações, flagelações, emboscadas. Era como se se decretasse que ninguém morria nem se feria, que o rol de privações era coisa ligeira, arranjava-se o quartel, fazia-se a ação psicológica, ninguém tinha medo, ali nada faltava, havia muitas saudades da família.

A autora socorre-se de múltiplos testemunhos em todos os seus capítulos e procura “desocultar” o que não se transmitia por carta, nas visitas e até mesmo no regresso definitivo. No capítulo “Morte em tempo de guerra” soltam-se as línguas, fala-se de corpos esquartejados, de mutilações, até do prazer de matar, há a procura de desforra. Seguem-se depoimentos sobre outro silêncio fora da camaradagem de guerra: o sexo, as prostitutas, os encontros com as lavadeiras, mas também o medo das doenças, as coboiadas.

Quem regressa chega diferente, ninguém hibernou, nem quem ficou nem quem combateu. Quem chegou apercebeu-se rapidamente que a interlocução era mínima, aquelas histórias vivenciadas em África eram intimidativas, esbarravam contra sentimentos e valores organizados. Só que quem chegava dava sinais de tumulto interior: barulhos de carros, foguetes nas festas e imediatamente começavam as tremuras, havia a procura de uma vala ou de um abrigo, manifestavam-se pesadelos, os familiares procuravam sossegar. E assim se davam os passos da readaptação, o sofrimento das recordações, na generalidade dos casos, parecia que se ia absorvendo. A autora observa que na maior parte destes testemunhos os ex-combatentes falam do “outro” com saudade, o “eu” é representado sob forma negativa e por vezes com rejeição. O “eu” é um quase joguete do destino, numa situação não escolhida, como alguém desabafa: “A guerra roubou-me os melhores da minha vida. Afastei-me da leitura, da escrita, do cinema e do teatro, afastei-me disso tudo. Antes era um jovem calmo, a guerra transformou-me completamente, fiquei mais agressivo”.

E há a etapa da aceitação, toma-se consciência de que é preciso fazer o luto do homem anterior, e, nos casos de sofrimento, enfrentar o que nos perturba, dar tudo por tudo pelo apaziguamento recorrendo à análise, ao apoio psicológico, à terapia em grupo. É neste contexto que a autora nos fala de organizações como a ADFA, a APOIAR, no trabalho psiquiátrico para quem sofre de Perturbação de Stresse Pós-traumático. O psiquiatra Afonso de Albuquerque caracteriza assim estas vítimas: “Estes homens sofrem de perturbações de pânico, experienciam pesadelos, flashbacks, ficam extremamente perturbados, qualquer coisa que se relacione com a sua experiência de guerra, eles nessa noite não dormem, ficam muito piores. Há um retrocedimento da situação, têm ansiedade, perturbações depressivas, são pessoas que têm mais problemas de integração ao trabalho, à família, são mais quezilentos. As pessoas que têm esta doença têm mais perturbações psicossomáticas, dores de cabeça, insónias, problemas gastrointestinais, problemas cardiovasculares, etc. Os que têm PTSD têm uma duração menor de vida, acabam por morrer de problemas cardiovasculares”. Também as mulheres intervêm, acompanham essas situações críticas, conseguem por vezes conduzir o marido para os tratamentos. A seu lado, dorme um ser doente que se agita no sono tumultuoso, que gritam para soltar os pesadelos, são elas que os procuram serenar, por vezes sem sucesso algum. Afonso Albuquerque observa: “Convém que esta doença continue a ser silenciada, porque isto implica gastos com todos estes homens. As esferas militares não querem saber. Há uma completa recusa em aceitar que esta doença existe. As estruturas militares nem querem ouvir falar deles e este sentimento de injustiça mantém. A Segurança Social recusa-se a dar reformas a esta gente”. E a autora comenta: “Estes homens sofrem de amputação invisível da guerra, que não passa apenas pela questão mental, mas também pela amputação das relações sociais, profissionais e afetivas”. E concluiu do seguinte modo: “Este ensaio em forma de livro é o meu contributo para que seja possível levar ao espaço público a temática da memórias e traumas de guerra. Não existe um espaço próprio e único para se falar sobre as atrocidades, por esse caminho estamos a reduzir o espaço da memória. Pretendo com esta obra desmontar este último silêncio para que nunca mais seja possível que tal cenário se instale na sociedade e nas almas portuguesas.

1 Comment

  1. Pela enesima vez ……..

    Deram tudo, ate’ a sua propria vida, sem nada pedirem em troca. Foi assim o soldado portugues nas tres frentes da guerra colonial. DITOSA PATRIA QUE TAIS FILHOS TENS.

    Rodolfo Batalha
    CART 676 GUINE’ 1964 – 1966
    BRAVOS E SEMPRE LEAIS
    SERRA DO PILAR

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