Espuma dos dias – Caminhante…

em Opinião

Nós sabemos o significado histórico da palavra titular da crónica, sequência da batalha de Termópilas, cujo sentido de honra da palavra dada custou a vida a Leónidas e a trezentos espartanos por ele comandados, quando podiam ter deposto as armas. Heródoto deixou-nos o relato do acontecido.
Desde 1961, centenas de milhares de portugueses no cumprimento do dever suportaram as inclemências de uma guerra injusta, milhares deles morreram e outros milhares ficaram estropiados. Eles entenderem como obrigação sua respeitarem as leis vigentes, defender a Pátria, honrarem a bandeira. Outros preferiram desertar, não os censuro, todavia ninguém de bom senso pode ignorar o sacrifício e pundonor dos combatentes nas três frentes da denominada guerra colonial então em curso.
Todos os participantes no conflito merecem amplamente o reconhecimento das Instituições políticas estatais sejam elas de índole presidencial, legislativa, governamental ou autárquica.
Noutros países, os antigos combatentes – veteranos de guerra – são justamente reverenciados através de gestos simbólicos e acções materiais a dizerem que a Memória da Nação passa por dedicar aos ainda vivos saliências de apreço na normalidade quotidiana.
Nessa perspectiva, no dia sete de Abril participei na sessão da Assembleia Municipal de Abrantes dentro das prerrogativas regimentais concedidas a todo e a qualquer cidadão, onde perguntei à Sra. Presidente da Câmara se no decorrer da sessão solene consagrada à evocação do 25 de Abril iria anunciar a criação de espaços gratuitos nos parques de estacionamento aos antigos combatentes devidamente identificados, bem como o de viajarem nos autocarros municipais sem pagarem. A Sra. Presidente não se dignou responder.
Curiosamente, ante o confrangedor mutismo da autarca, um senhor levantou-se, chegou ao pé de mim e disse suavemente: também fui combatente!
Os envolvidos na guerra colonial raiam os setenta e oitenta anos, receberem o agrado acima mencionado concedia-lhes alegria, já o seu silenciamento provoca-lhe desgosto e sentimentos negativos sobre a ingratidão dos poderes. A atitude da Presidente da Câmara de Abrantes é um gesto de impertinente altivez numa primeira leitura, também poderá ser encarado ao modo de desconhecimento do ocorrido na segunda metade do século passado, o que não acredito.
A História portuguesa está eivada de maus momentos, os soldados têm pago duramente os erros, agradecer-lhe em vida só nos enobrece. A autarca abrantina preferiu ruidoso silêncio. É pena!

Armando Fernandes

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