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Da FNAT à INATEL (1935-2010): A singularidade de uma instituição de tempos livres

“Para a história dos tempos livres em Portugal, da FNAT à INATEL (1935 – 2010)”, por José Carlos Valente, Edições Colibri, 2011, é um rigoroso registo da história de uma instituição que tem tido um papel preponderante nos tempos livres dos trabalhadores e cujos 75 anos recentemente se comemoraram. A sua leitura favorece um melhor conhecimento dos desafios que se puseram à cultura popular nacionalista, entre os anos 30 e os anos 50 do século passado. Com efeito, a FNAT sofreu todas as influências dos organismos de lazer autoritários e totalitários do seu tempo, seguiu fielmente a orientação de uma linha radical e populista do regime de Salazar, assegurou ao regime a integração dos trabalhadores no regime corporativo e na política do Estado Novo. A FNAT do regime de Salazar, diga-se o que se disser, foi uma fonte caudalosa de cultura e recreio cujo papel não pode ser subestimado e muito menos ignorado. O regime tinha a censura, a polícia política, o partido único, um órgão de propaganda, a organização corporativa, a inculcação ideológica na escola, na mocidade e através da Legião Portuguesa. Era indispensável intervir na esfera dos lazeres, enquadrar certas actividades sindicais e propor-lhes colónias de férias, passeios, excursões, ginástica e educação física, espectáculos de música e teatro, visitas de estudo, instalação de bibliotecas popular, cursos de cultura profissional em geral, música e canto coral. Competia ao Estado, de colaboração com o patronato (corporações, gerir todo este largo espectro de tempos livres através da FNAT- Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho. Atente-se no espírito da revolução nacional, na tensão permanente entre o nacionalismo e comunismo, e nas propostas que o regime entendeu serem as mais eficazes para ocupar as massas: refeitórios económicos, serões recreativos para operários, iniciativas de folclore e etnografia, etc. A FNAT e os seus mentores chegaram mesmo a idealizar serem a grande entidade de propaganda. Basta pensar que o Centro de Cultura Popular, de onde saíram importantes dirigentes da FNAT acaba por ser, durante alguns anos, a matriz ideológica que pretendia exercer um papel determinante na formação das classes trabalhadoras contra o comunismo, orientando-os para o “redil do bom nacionalismo”. A Legião Portuguesa andou igualmente próximo da FNAT e houve iniciativas conjuntas com grupos das juventudes católicas e até publicações sindicais já controladas pelo regime.

José Carlos Valente, com utilidade, começa por explanar o conceito de lazeres na industrialização e o papel dos tempos livres entre as duas guerras, tornando claro que o regime de Salazar não podia prescindir sobretudo nos grandes centros populacionais, num certo controlo dos tempos livres e combater no terreno as oposições ideológicas fomentando um uso atento da rádio, da instrução, dos festivais de ginástica e das festas populares, bandas de música e até cursos nocturnos. Dá-nos uma imagem acertada da gestão dos lazeres por fascistas italianos, nazis e soviéticos. Torna claro que todo este projecto totalizante iria entrar em colisão com as colectividades populares de cultura e recreio que, quando resistiram, foram discriminadas. Mas o patronato não foi particularmente receptivo a desembolsar para estes lazeres, o que tornou a vida da instituição sempre incerta. Nas grandes empresas lançou-se uma rede de influência, os Centros de Alegria no Trabalho. Em meio citadino, a FNAT apresentou bons resultados. Em meio rural, era a Junta Central das Casas do Povo quem pontificava nos lazeres.

Com o arrefecimento ideológico do regime, a FNAT enveredou por novos caminhos a partir dos anos 50, época em que o folclore, as regatas e o gimnodesportivo se impuseram e com uma grande procura natural, os trabalhadores disputaram as suas idas para as colónias de férias, manifestaram com agrado o uso destes equipamentos. Dos anos 50 para os anos 60, a música (incluindo os coros), a ópera no Teatro da Trindade, os serões para trabalhadores, continuam a registar uma grande procura. A FNAT tem o seu próprio estádio, promove concertos de música sinfónica, apoia o teatro amador, tudo numa atmosfera em que a ideologia corporativa emudece.

E assim se chega ao 25 de Abril e a ruptura de mentalidades. Surgem novos planos, como a recolha musical dirigida por Michel Giacometti, o apoio ao teatro de intervenção, mas também se mantiveram os estímulos ao teatro amador, aos espectáculos de variedades e aos concertos por bandas.

De reforma em reforma, a FNAT dá origem ao INATEL e aposta no turismo para a terceira idade, à construção de novas unidades hoteleiras, a iniciativas de turismo educativo júnior, entre outras manifestações. O autor ressalta as características ímpares da hoje fundação INATEL e o seu entrosamento com o serviço público, a economia social e inúmeras manifestações da cultura erudita e da cultura popular. Os mercados presentes e futuros desta instituição única parecem apostar no turismo, na cultura e no desporto.

Uma leitura agradabilíssima e que abre as portas à história dos tempos livres dos trabalhadores nos últimos 75 anos em Portugal.

 

Beja Santos

 

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Publicado por on Out 6 2011. Arquivado em Blogue de Notas, twitter. Pode seguir os comentrios a esta notcia atravs de RSS 2.0. Pode deixar um comentrio ou remeter para esta notcia

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