Ricardo, fizeram-te Francisco, pá!

em Opinião

Há dias escrevi, Ricardo, que te devias fazer de Francisco, o de Assis, mendicante que se despiu de todos os bens e viviu quase nu, sem dinheiro, nem provisões. Mas, depois do que aconteceu, diria, Ricardo, fizeram de ti outro Francisco, neste caso o Francisco de Mascarenhas, marquês de Alorna e Fronteira, ou o inverso.

Nos tempos da ditadura do Estado Novo, este digno e intrinsecamente bom Francisco, tinha palácio a Benfica, propriedades pelo Ribatejo e Alentejo, era herdeiro de uma das mais ilustres famílias da monarquia que se esgotara em 1910. Esperavam dele, os próceres do regime do 28 de Maio de 1926, que Francisco se comportasse como era esperado e desejado: que andasse por salões em beija-mãos, por caçadas e tainadas, que recebesse rendas e vénias, abrilhantasse cerimónias e garantisse a velha ordem. Que marquesasse, enfim.

Ordem. As sociedades e os seus regimes políticos querem ordem. Ora, em vez disso, o Francisco, rompeu a ordem esperada, recebia e convivia com republicanos , democratas e até com comunistas! Os próceres do regime, e até alguns fidalgos, acusaram-no de traidor de classe, cognominaram-no de Marquês Vermelho!

Mudam-se os tempos, mas não mudam as moscas. Dir-se-ia a teu propósito, Ricardo. De ti, militante do BE, esperam (não esperam, mas gritam que sim) que te comportasses como um revolucionário. Que andasses por aí, de barba e boina, pelo menos. Ora andas de barba, mas aparada, em cabelo e de camisa lavada. O aspeto não é o mais grave. O pior é que, dizem os descendentes dos próceres do regime que acusou o Francisco de Mascarenhas, compraste um prédio em Alfama e o que eles, embora não tenham a coragem de o dizer em público, esperavam (mentem) de ti era que em Alfama tivesses constituído uma guerrilha, com os locais de guerrilheiros, de lenços vermelhos ao pescoço, organizados e armados com arcabuzes e Kalashnikovs, a rebentar esquadras de polícia e antros de fadistas reaccionários! E tu compras um prédio para ali instalar turistas atraídos pelas sardinhas e o típico do bairro!

Os teus acusadores querem uma revolução. Querem um Che em Alfama, porra!

No Estado Novo, esperavam os seus legionários e polícias de costumes (maus), que o digno marquês Francisco de Mascarenhas marquesasse. De ti, esperam os próceres deste novo Estado, os seus zelotas, que um marquês do BE, em vez de comprar um prédio, o rebente e lá instale uma unidade de guardas revolucionários. Ou, no mínimo, que não estrague os negócios dos amigos. Que se meta apenas onde a sua condição (no teu caso, a de esquerdalho, na do marquês, de não adepto do poder divino) sirva para manter a ordem não para a subverter. Uma guerrilha aceitam que tu comandes em Alfama. Comprar um prédio é que não pode ser! É esta a lógica do bons portugueses!

Em boa verdade vos digo estar convicto que o Ricardo estragou um negócio que estava tão bem armado como um cambalacho para um promotor imobiliário amigo de quem colocou o prédio à venda.

Ricardo, comeste, talvez sem teres disso consciência, do prato destinado a outrem. Agora pagas o descuido, ou o atrevimento. Aquilo não eram figos para a tua boca e rebentaram-te os beiços!

 

Carlos Matos Gomes

(in facebook.com/carlos.matosgomes)

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Vasco Pulido Valente, além de brilhante historiador, é dono de cultura profunda,
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