Raro postal de Santarém – “Aqui, nasceu o último filho do Buiça e morreu a mulher dele”

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Raro postal de Santarém, mostrando a Igreja de São Roque, encimando o Bairro Laurentino, que Deus haja. Este templo foi adaptado para residência de um dos mais admiráveis vultos de Santarém, sobre o qual me atreverei a escrever (com mais detalhe), quando o terreno do tempo me der algumas horas livres de esmola.
Laurentino Veríssimo nasceu em 1855 (segundos alguns estudiosos, teria sido em 1850). Quando viu a sorte financeira sorrir-lhe, edificou um bairro operário, com o seu nome, para os mais carenciados (corria o ano de 1893). Nessa altura, toda a gente lhe dava palmadas, nas costas. Porém, houve um período terrível, na sua vida: forçado a pedir emprego aos amigos, «a fim de não morrer de fome». Que foi bibliotecário, museólogo, defensor do património, “embaixador da arqueologia de Santarém” e revolucionário constituem informações que qualquer livro sobre “santarenses” ilustres poderá trazer. Contudo, a parte oculta, guardada em cartas recém-exumadas, sugere e justifica publicação autónoma.
É ele quem afirma, explícita e formalmente: «em minha casa nasceu o último filho do Buiça e ahi morreu a mulher dele […]. Preciso de emprego para não morrer à fome.»
Tudo o resto, incluindo castigos autárquicos e sua reabilitação, por meio de louvor, é extenso de mais para ser pespegado nesta simples nota. Arauto da República, Laurentino Veríssimo teve quase tudo e, em 1936, morreu, possuidor de quase nada. Todavia, cumpriu, sempre, um dos seus lemas idealistas: «Quem tudo quer possuir, terminará por ser possuído por quase nada.»

José Miguel Noras

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