Editorial – Uma região com fracas vozes

em Opinião

O sector do turismo, que tanto tem contribuído para o nosso crescimento económico e para a criação de novos empregos, continua a dar cartas. Cá dentro e lá fora. Portugal acaba de ser distinguido com o prémio de Melhor Destino Turístico do Mundo nos World Travel Awards, uma espécie de óscares do turismo, tornando-se assim o primeiro país europeu a conquistar tal distinção. Acresce que a Madeira foi também classificada como o melhor destino insular do mundo e a cidade de Lisboa como o melhor destino city break do mundo. Portanto, fama a subir lá fora e receitas a crescer cá dentro. Perante este reconhecimento internacional, não podemos deixar de nos interpelar sobre o que vale a economia do turismo na nossa região e, em particular, na cidade de Santarém? Muito pouco. E estamos tão perto de Lisboa…
O nosso problema maior, se o quisemos encarar de frente, é mesmo capaz de ser o da escala desmedida da região de turismo que o anterior governo nos legou – com a bênção do ex-ministro Miguel Relvas – quando enterrou a região de turismo do Ribatejo e nos empurrou para o abraço fatal do Alentejo. Ceia da Silva, à frente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo faz, com certeza, o que pode… sobretudo a palmilhar quilómetros e sorrisos no seu carro que, em benevolente metáfora, disse um dia ser o seu escritório e sede da região – que, como é sabido, está sedeada em Portalegre. Não surpreende, pois, que a marca Ribatejo e a rica história patrimonial de Santarém não se consigam afirmar perante tão fraca atenção e exigência, e num tempo tão competitivo como este em que vivemos.
Infelizmente, o desafio lançado há umas semanas pela presidente da Nersant, e que O Ribatejo levou à primeira página, parece ter caído em saco roto. Não vimos que tenha estremecido um autarca ou deputado da região a legítima e oportuna reclamação de Salomé Rafael, da criação de uma entidade própria de turismo que tutele a região do Ribatejo, acabando com a divisão a meio do distrito de Santarém – mais um arranjo político de Miguel Relvas, pouco funcional, que atirou a metade norte do distrito para Coimbra e a metade sul para Évora. O desafio agora lançado pela presidente da Nersant, mais do que justificado, é essencial para acordar e dinamizar o imenso potencial turístico do Ribatejo.
Porém, a resposta dos nossos estimados autarcas e deputados foi, até agora, um ruidoso silêncio. Incompreensível indiferença que só pode ser sintoma de fragilidade política ou, bem pior, de conformismo e falta de visão. Ora, sabendo como a fama é efémera e os destinos turísticos de modas, convinha que os senhores autarcas e deputados eleitos pelo distrito ponderassem fazer um pouco mais para que a nossa região também beneficie do bom vento do turismo, enquanto este sopra a nosso favor. Se queremos atrair investimento e fixar população – que o distrito continua a perder –, temos que dar ao pé. Concertados e depressinha.

O caso Raríssimas, sobre o mau uso que uma senhora deu ao dinheiro de uma instituição de solidariedade privada subsidiada pelo Estado – e que entretanto já levou à queda de um membro do Governo –, levanta um alerta mais profundo, sobre o qual convém reflectir seriamente, e que a investigação em curso sobre este sórdido caso não esgota. É preciso encarar a sério o problema que é a fiscalização dos protocolos de cooperação da Segurança Social com instituições privadas – entidades caritativas onde é frequente ver os seus dirigentes ancorados em figuras politicamente poderosas. São cerca de dois mil milhões de euros que estas instituições privadas de solidariedade vão receber do próximo Orçamento de Estado. É demasiado dinheiro, para tão frouxa intendência. Não se pense que as sinecuras com que a presidente da Raríssima se locupletou são caso único. Infelizmente, não o são. Há pelo menos mais oito IPSS a serem investigadas pelo Ministério Público. Mas a barra dos tribunais só pode penalizar o crime, não o previne.

Joaquim Duarte

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Ultima de Opinião

Cacharolete futebolístico

Os últimos tempos têm sido pródigos em acontecimentos no já prodigioso círculo

A noite do tempo?

Uma das reivindicações mais frementes do feminismo actual reside na do corpo.
0 0.00
Ir para Topo