Zona de Perecíveis – Apontamentos de viagem

em Opinião

1. No primeiro Sábado de maio, a minha mãe foi abordada na igreja, ainda antes do início da missa, por um velhinho frágil, muito magro, quase transparente (ainda mais velho que ela própria). O senhor trazia consigo umas dezenas de papéis. E ele mesmo nos explicou que se tratava de orações por si copiadas à mão, numa elegante caligrafia como já não se usa. Levava os dias a passá-las para quartos de folhas A4 e, depois, distribuía-as por transeuntes. Deliberadamente fugia a fotocopiar as orações, por tal não ser – sustentava – “a mesma coisa”. A oração tinha de passar primeiro pela sua mão, “para chegar aos outros já meio rezada”. Haverá nisto, creio eu, conteúdo para uma tese de doutoramento sobre caligrafia.

2. Desde sempre, vejo as estações de comboios e os aeroportos como lugares muito belos e – sem contradição nenhuma – terrivelmente tristes. É nestes territórios de humanidade avulsa que sinto aquela absurda vontade de sofrer dita em verso, por Cesário Verde, a propósito do entardecer lisboeta.
Em visita (benigna) ao Instituto português de Oncologia, no Porto, a acompanhar um familiar, eu voltei a sentir, há uns tempos, algo de semelhante. Já no regresso à vila onde resido, reflicto sobre a coincidência sensacionista: em que medida aqueles corredores são uma espécie de estação ferroviária ou de aerogare?
Surpresa nenhuma. Creio que tudo, como sempre, tem que ver com a mortalidade. Frágeis, leves, voláteis, transitórios, indefesos, ali vejo seres, como eu, partindo ou vendo partir. Encontrando-se, desencontrando-se, despedindo-se.
Voltarei com o meu familiar ao I.P.O. daqui a um ano, segundo a agenda das consultas. Talvez aí nos reencontremos, queridos contemporâneos. Ou não. (Repito: talvez.)
Talvez, sabei-o, é um delicado monumento linguístico à esperança, mas admite já a ominosa possibilidade da decepção. Uma ponte de cristal entre acreditar e resignarmo-nos. Entre sermos e termos de, um dia, deixar de ser.
A rua da minha infância, quando havia vento, trazia os murmúrios de comboios indo e vindo. O nome oficial desta Estação é Coimbra B. A designação popular é Estação Velha (dita velha, notai, desde a meninice de quem agora, maduro, a recorda). E ocorre-me que essa é uma adequada designação da própria Vida: Estação Velha desde que nascemos.

Joaquim Jorge Carvalho

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