Editorial – A semana perfeita

em Opinião

Depois da visita do Papa a Fátima, que durante dois dias encheu noticiários em contínuo e em todos os canais até à exaustão do mais santo dos espectadores, depois da retumbante vitória do popular Benfica com a conquista, já previsível, do tetra campeonato nacional e o subsequente folclore mediático dos rubros festejos no Marquês, veio o Salvador Sobral a encerrar a noite do dia 13 com mais uma vitória, inédita e merecidíssima aliás, no festival da canção da Eurovisão, com direito a mais um esfusiante massacre mediático, a dada altura até maçador para o próprio.
Com o país e uma boa parte do mundo rendidos à interpretação e às palavras deste genuíno Salvador, um jovem sensível e culto até na auto-ironia, só faltavam mesmo as boas notícias sobre o desempenho da economia nacional. E eis que nesta favorável conjugação dos astros, veio o INE anunciar-nos que o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou 2,8% no 1º trimestre de 2017, face a igual período do ano passado. Um inédito crescimento que ultrapassa todas as previsões e a que já não estávamos há muito habituados, acompanhado, aliás, pela redução do risco de pobreza e pela redução nos juros dos empréstimos internacionais.
Foi a semana perfeita, não há dúvida. O sucesso pleno no país dos três “efes” – Fátima, futebol e festival –, mais as boas notícias sobre o crescimento da economia portuguesa. Há muito que não se via uma coisa assim. Tanta vitória de seguida é até difícil de digerir, mesmo para António Costa e Marcelo, o duo perfeito – para os que ainda se lembram da rábula que Herman José e Nicolau Breyner popularizaram em meados dos anos setenta – do Senhor Contente e do Senhor Feliz.
Claro que a satisfação, mesmo perante tão raros e auspiciosos acontecimentos, nunca o é plenamente. Quer pela natureza efémera que o próprio sucesso encerra, sobretudo na voragem deste sorvedouro mediático, quer ainda pelos ressabiados com a vida (não será o caso da insatisfação da guru Teodora Cardoso com os inocentes números?) ou ainda os “espoliados” passistas do costume, inconformados com qualquer sucesso que aos seus olhos politicamente míopes favoreça a “geringonça”.
Como nota de humor, uma deputada do PSD, que nunca houvéramos visto, veio, como pau mandado, reclamar para o governo PSD/CDS parte do mérito deste sucesso da economia portuguesa, esquecida dos demónios que antes Passos Coelho invocava. Não estamos esquecidos das palavras com que zurziu as políticas de reversão da “geringonça”, do apocalipse que aí vinha. Um desaforo, as declarações desta senhora, e de quem a mandou falar. Reveladoras da falta de honestidade política e intelectual de quem ainda julga que os portugueses são uns imbecis que se enganam com facilidade.
Da pequenez desta gente não reza a história. O facto relevante é que temos motivos para celebrar. E como nos adverte o economista Ricardo Pais Mamede: “o importante é que as melhorias que se vão sentindo não nos façam esquecer a onda de destruição que por aqui passou (cujos efeitos continuam bem visíveis para quem os quiser ver), nem as dificuldades que enfrentamos para recuperar do desastre.”

Joaquim Duarte

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