Home » Opiniões online » O estado ao que isto chegou

O estado ao que isto chegou

 Por: José Niza

  1. Enquanto umas dúzias de deputados – alguns dos quais que nos tempos da Velha Senhora teriam dado competentíssimos inquisidores policiais – se ocupam e preocupam há meses com questões totalmente irrelevantes para o País, como o drama existencial de apurar se em Portugal existe ou não liberdade de informação, ou se o Primeiro Ministro mentiu ao Parlamento ao afirmar não ter tido conhecimento oficial do frustrado negócio PT-TVI, Portugal foi acossado por uma conjuntura financeira internacional que pôs em causa o cimento que cola a União Europeia, que é o euro, e esteve à beira de um colapso de dimensões incalculáveis.

A sanha persecutória contra Sócrates e contra o governo – da qual o actual líder da oposição Pedro Passos Coelho, com inteligência e dignidade sempre se demarcou – poderá satisfazer e alimentar os egos politicamente paranóides de deputados como Pacheco Pereira, Pedro Duarte, João Semedo e outros, mas em nada contribui, nem para a dignificação do Parlamento, nem para resolver os problemas da vida dos portugueses.

Não quero, pretenciosa ou saudosisticamente, invocar a estafada frase de que “no meu tempo é que era bom”. Mas a verdade é que, nos 15 anos em que fui deputado, não ocorreram coisas destas na Assembleia.

Nunca – nem nos momentos mais conturbados do pós-25 de Abril – aconteceram encenações como a do Parlamento funcionar num domingo, não por qualquer urgência de relevante interesse nacional, mas para ouvir o presidente da Comissão Executiva da PT sobre o não-negócio com a TVI.

2.A rápida evolução da recente e actual crise dos mercados financeiros lembra-me a pandemia da gripe A, que começou num país e rapidamente se propagou a outros. Esta “gripe financeira” começou na Grécia, por lá andou uns tempos, mas de um dia para o outro, como o vulcão da Islândia, começou a atacar Portugal sem apelo nem agravo. A seguir seriam a Espanha, a Itália e o próprio Reino Unido. O que é o mesmo que dizer que não seria só Portugal a afundar-se, seria a Europa toda.

“Para grandes males, grandes remédios”. Tocou a rebate e, de imediato, a hora da verdade chegou a Bruxelas. E de lá saíram imposições draconianas, mas necessárias. Mesmo assim, as medidas que em Portugal vão ser postas em prática – se comparadas com as que foram adoptadas pela Grécia, Espanha ou Reino Unido – são muito menos dolorosas.

Mas será uma ilusão pensar que serão suficientes ou transitórias. Não são: isto vai doer e vai durar.

3.Muitos portugueses – e com toda a razão – perguntarão: “Mas como é que isto foi possível” “Como é que deixaram chegar as coisas a este ponto?”

A resposta, para Portugal e para a Europa, é a mesma e espantosamente simples: “Isto aconteceu porque todos gastaram mais do que podiam”!

Mas uma coisa é a gente entender as razões. E outra é saber tirar consequências dos desvarios e dar algum repouso aos cartões de crédito. Isto, claro, para aqueles que os têm. Porque, os outros – e são muitos – terão de ser ajudados na pobreza, no desemprego, na doença. Estes terão de ser a prioridade das preocupações e os destinatários da SOLIDARIEDADE, se é que esta palavra politicamente ainda existe.

4.Como é que se sai disto? Quais os caminhos?

Não sou especialista na matéria. O que até talvez seja bom, porque em situações destas mais vale uma boa dose de bom senso, feito de experiência vivida, do que brilhantes elucubrações de cátedra.

Por exemplo:

Se cada português, ao comprar qualquer coisa – uma laranja, uns sapatos, um electrodoméstico, um vestido, uma T-shirt – optar por um “made in Portugal”, talvez dê trabalho a muita gente.

Se os bancos pagarem o IRC a 25%, como as outras empresas, em vez de apresentarem gananciosos lucros de 5 milhões por dia, talvez isto ande melhor e mais depressa.

Só que há uma pequena diferença:

No caso da T-shirt, quem decide é você.

E no caso dos bancos, é o governo.

E aqui é que “a porca torce o rabo”!

Outras notícias que lhe podem interessar

  1. Tudo isto existe, tudo isto é triste
  2. Chegou a hora da verdade
  3. Isto por cá vai indo como dantes
  4. “ Chegou a hora da verdade”
  5. O Estado da Nação: “o algodão não engana”

Short URL: http://www.oribatejo.pt/?p=8252

Publicado por on Mai 24 2010. Arquivado em Opiniões online. Pode seguir os comentrios a esta notcia atravs de RSS 2.0. Pode deixar um comentrio ou remeter para esta notcia

5 Comments for “O estado ao que isto chegou”

  1. Cremilda Salvador

    Como professora da UTIS, de Literatura e Cultura Africana dos países africanos de língua oficial Portuguesa, quero salientar que esta semana cultural pertence e é da realização exclusiva dos alunos da Utis. Pelo 5º ano consecutivo celebramos__África, iniciando amanhã 25, dia de África,as festividades cuja maior parte ocorrem no teatro Sá da Bandeira__Cremilda Salvador.

  2. É com apreço que leio palavras sensatas e reveladoras do estado paranóico da saúde politica do nosso país, mas a realidade do mercado de trabalho é dominada por uns quantos pseudo defensores dos trabalhadores, e o que vemos no dia a dia é o acesso ao subsidio do estado, e quando se pretende apanhar as laranjas o argumento trabalho cai irremediavelmente, e somos os pequenos agricultores e PME´s que trabalhamos para sobreviver, sem férias e sem direito a subsidio de desemprego se alguma coisa corre mal.

  3. Com que então, consuma produtos nacionais! E acho bem! Mas agora pergunto eu: Porque razão o caro Niza, quando cumpria serviço militar em Angola, por sinal muitíssimo bem instalado, apenas consumia whisky Escocês? Não me diga que o whisky "Sbell" fabricado em Angola não lhe servia?! Grandes tempos e grande whisky…estrangeiro!
    As coisas que se fazem quando se é novo…e as coisas que se dizem quando se é velho!…

  4. Conjuntura financeira internacional? Mas então os culpados do estado a que isto chegou não foram os professores? Decida-se Sr. Niza. E não nos venha atirar pó para os olhos que nós conseguimos enxergar que o Sócrates não é o anjo que o senhor pinta.

  5. De dia para dia vejo o Sr. Niza mais baralhado!

Leave a Reply

© 2012 O Ribatejo. All Rights Reserved. Iniciar sessão - Designed by Gabfire Themes - modificado por Marco Dinis Santos