O verbo “roblar”

em Opinião

Inequivocamente, o caso Robles domina a trucidante agenda mediática lusitana, tendo tudo sido mais do que dito e redito – desde o confirmado ao insinuador, e do verdadeiro ao falso – sobre a conduta do bloquista de olhos garços que tantos suspiros de enamoramento provoca.

E tão badalado está a ser que prevejo a instituição, a breve trecho, do verbo “roblar” no vocabulário português, significando o acto de comprar, remodelar e vender um imóvel com margens astronómicas de lucro. Aliás, quase de certeza que ouviremos, sempre que alguém fizer um negócio estrondosamente proveitoso, que se tratou de um “ganda roblanço!”

Nesse sentido, cedendo à pressão do momento, mas empenhando-me em divergir um pouco, prefiro analisar o que se seguiu à renúncia de Ricardo Robles ao mandato de vereador na Câmara Municipal de Lisboa.

Como noticiado, o escolhido para substituir o envergonhado capitalista foi Manuel Grilo, um homem experiente, professor e membro do Conselho Nacional de Educação, o que me levou a pensar que o Bloco de Esquerda optara por tentar recuperar a credibilidade perdida mediante um rosto maduro que centra as suas especialidades políticas e profissionais noutras áreas que não a da habitação, até porque a número dois da lista também se evidencia pela sua actividade enquanto dirigente do movimento “Habita – Colectivo pelo Direito à Habitação e à Cidade”, ou seja, por estar envolvida nas causas que, por ora, expõem uma incoerência berrante entre o discurso e a prática no seio do partido.

Claro que, dadas as pernósticas referências ao respeito pela paridade de género, isso se traduziria noutra crítica e criticável incongruência; contudo, esse corolário interpretativo manifestar-se-ia injusto, uma vez que foi Rita Silva, a natural sucessora, a afirmar-se indisponível para assumir o cargo. O curioso nisto é que, apesar das explicações apresentadas, o principal motivo foi a sua aversão ao acordo autárquico celebrado entre o BE e PS, ou melhor, foi o facto de esta ser um obstáculo à sã e regular exequibilidade desse convénio.

Por outras palavras, este Robles “affair materializou-se numa autêntica erupção de normalidade política na agremiação liderada por Catarina Martins, porquanto, como uma virginal debutante que assiste ao esfumar da respectiva inocência, o Bloco de Esquerda, bem ou mal, ainda sente a corrosão originada pela saliva ácida da comunicação social e experimenta o sabor acetoso de um escândalo que forçou a demissões; não esquecendo, igualmente ali, a demonstração de que nem tudo flui de maneira harmoniosa. Porém, se esta contextura lhe retira votos, há que salientar os principais beneficiários: o Partido Socialista e o PCP, por esta ordem! Em consequência, o ciso e a cordura aconselham a moderar a excitação…

João Salvador Fernandes

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