Editorial – Crescer, por vezes também dói

em Opinião

Foram, afinal, prematuras as notícias sobre a morte da indústria cervejeira em Santarém. É verdade que já não se chama Clock, nem Unicer, nem Cintra… mas, ainda que sem marca própria de cerveja – pelo menos reconhecida como tal –, o velho cluster cervejeiro está bem vivo na fábrica da Font Salem, e acaba de anunciar novos investimentos, da ordem dos 40 milhões de euros, em novas linhas de produção. Aliás, desde que este grupo espanhol comprou a fábrica que Sousa Cintra instalou há 15 anos em Santarém – e que a meio do percurso ainda pertenceu ao empresário Jorge Armindo –, que esta fábrica não tem parado de crescer, ao ponto de ser hoje a maior unidade de produção da Font Salem, grupo empresarial que é tão só o líder ibérico no mercado de enchimento para marcas de grande distribuição.
E a ironia da coisa reside, precisamente, neste ponto, uma vez que esta fábrica da Font Salem é agora também fornecedora da Unicer, a tal que o gestor e ex-ministro centrista, Pires de Lima, encerrou para concentrar toda a produção no norte do país, em Leça do Balio. Hoje, a fábrica da Unicer em Santarém, com toda a sua capacidade tecnológica de produção instalada, é menos que um armazém. E o mesmo sucedeu à Rical. Tamanho desperdício, ali ao abandono, para agora, afinal, terem de comprar o serviço na fábrica ao lado. Precisamente antes desdenhada fábrica Cintra. A mesma que, entretanto, os espanhóis multiplicaram por quatro na sua capacidade de produção – o investimento já soma 100 milhões de euros –, por entenderem aquilo que Pires de Lima não viu: que a cidade de Santarém tem uma localização privilegiada e excelentes acessos, mesmo para Espanha.
Entretanto, o presidente da Câmara Ricardo Gonçalves – o mesmo que viu encerrar, numa postura de ingénua resignação, primeiro a Unicer e depois a Rical – enfeita-se abusivamente com os louros deste investimento da Font Salem, quando se viu alvo das críticas do vereador socialista, André Lopes, que esta semana o acusou de passividade e falta de iniciativa na captação de novos investimentos para Santarém, numa altura em que a economia do país apresenta excelentes resultados e quando os municípios vizinhos, por seu lado, anunciam grandes investimentos empresariais.
É evidente que Câmara não foi vista nem achada neste investimento da Font Salem, para além, obviamente, da cortesia a que as relações institucionais com as empresas já instaladas obriga. E se aqui houvesse algum mérito autárquico a reclamar, então teria de se ir lá bem atrás, ao tempo do executivo de José Miguel Noras, quando este cativou e convenceu Sousa Cintra a investir em Santarém. É certo que o percurso foi acidentado, mas resultou. O que agora se exige à Câmara é que se volte a mobilizar e que crie condições para captar novos investimentos, aproveitando este ciclo de desenvolvimento económico que o país hoje vive – o INE já anuncia 2,7%, de crescimento, coisa que já não víamos há 17 anos, desde que Portugal entrou na moeda única. É preciso, pois, avisar Ricardo Gonçalves, de que este bom andamento da economia não vai durar sempre.

O nosso país respira, desde 2016, com a chegada da “geringoça” ao poder, um crescente ar de confiança no futuro. Na economia, como noutros sectores da vida pública. Ainda agora acabámos de nos sagrar campeões europeus de Futsal – e frente à Espanha, o que não é coisa pouca –, com uma selecção que começou a dar os primeiros passos em Rio Maior. Como já antes, em 2016, nos sagramos campeões europeus de Futebol. Temos, de resto, os dois melhores jogadores do mundo nestas duas modalidades: Ronaldo e Ricardinho, pois claro! E também Salvador, que nos trouxe o inesperado galardão da eurovisão. Ou o ministro Centeno, que chegou a presidente do Eurogrupo. O que mais nos irá acontecer?

Joaquim Duarte

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