Editorial – A prenda de Natal de Jerusalém

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Quando Donald Trump abandonar a Casa Branca, e ainda faltam três anos, os Estados Unidos vão demorar muitos anos a repor ordem e decência na casa e a limpar a sua imagem no mundo – desejemos que seja apenas isso – das suas políticas desastradas, para não lhes chamar simplesmente criminosas. O caso da transferência da embaixada dos Estados Unidos de Telavive para Jerusalém, resultado de mais uma das suas impensadas promessas eleitorais a que na altura ninguém ligou peva, está agora a abalar o mundo, político e religioso, perigosamente. O papa Francisco foi das primeiras vozes a fazerem-se ouvir ao implorar respeito pelo estatuto de Jerusalém, em conformidade com as resoluções da ONU, e a pedir o impossível a Trump: “sabedoria e prudência”.
O Papa lembra ainda que “Jerusalém é uma cidade única, sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos, que ali veneram locais sagrados para as suas respectivas religiões”, acrescentando que ela “tem uma vocação especial para a paz”. Infelizmente, apesar de considerada como sagrada para estas três religiões monoteístas, Jerusalém não tem essa vocação de paz que o Papa lhe atribui. Bem pelo contrário, a história longa de Jerusalém é mais a de uma cidade de ódio, desolação e guerra. Na sua conturbada existência de milhares de anos, a história regista que esteve cercada mais 50 vezes, foi conquistada por 36 ocasiões e destruída em dez delas. Efectivamente, desde que, há milénios, os hebreus conquistaram esta sua “terra prometida” aos cananeus, e depois a defenderam dos filisteus, que o corredor sírio-palestiniano jamais sessou de ser teatro de dramas e tragédias em que a guerra é um modo de vida permanente. Passam agora precisamente 70 anos sobre a votação da ONU que determinou uma partilha equitativa do território, que nunca se concretizaria, e que 20 anos depois se agravaria, com o conflito israelo-árabe que ficou conhecido por guerra dos seis dias. Dois actos recentes, de uma tragédia antiga, que mudaram radicalmente a fisionomia daquela instável região do médio-oriente. É neste vespeiro que o irreflectido Trump vem meter agora a colherada ao pretender reconhecer a cidade de Jerusalém como capital de Israel. Apesar dos avisos, políticos e religiosos, que lhe chegam de todos os lados, Trump insiste em perturbar o instável equilíbrio desta região e alimentar o terrorismo incendiário. Em vésperas de Natal, a cidade de Jerusalém, que a cristandade associa ao nascimento de Jesus, volta a colher as atenções do mundo pelos piores motivos.

CENTENO – Quando, há pouco mais de meia dúzia de meses, o Expresso noticiou que o ministro das Finanças português estava na corrida ao cargo de presidente do Eurogrupo – um organismo opaco e informal na hierarquia institucional comunitária –, a reacção que por cá se gerou foi uma espécie de galhofa geral, sobretudo entre os analistas e comentadores de direita, com o desbocado Marque Mendes à cabeça do cortejo. Agora, que Mário Centeno foi eleito, temos a manifestação inversa, uma espécie de ovação geral, embora aqui e ali também com alguma hipocrisia à mistura, ora desdenhando a função, ora o contexto da eleição. O extraordinário, nesta eleição de Centeno, é acontecer apenas dois anos decorridos sobre um governo apoiado por comunistas e bloquistas, quando ainda há um ano era motivo de desagrado e forte suspeita do directório europeu. O resultado das políticas seguidas pela “geringonça”, ao arrepio da austeridade que a Troika e Passos nos impuseram, deram tão bons frutos, que agora até são reconhecidos pela mesma Europa que antes caucionou essa mesma austeridade.
Este país que esteve sob resgate externo, conseguir ter agora dois cidadãos em dois dos mais importantes postos internacionais, Guterres como secretário geral das Nações Unidas e Mário Centeno presidente do Eurogrupo, é obra. E não é do diabo.

Joaquim Duarte

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