Notícias do Bloqueio – Cem Anos de Solidão

em Opinião

Passam cinquenta anos sobre a publicação de Cem Anos de Solidão, a obra-prima de Gabriel Garcia Marquez que integra o património da Literatura Universal, esse território de palavras onde o sonho e utopia ganham asas no desafio da criação de mundos através da escrita.
Henry Miller, no livro em que falou dos livros da sua vida, conta que às vezes ia à estante e buscava os livros que amava. Pegava neles para a aventura da releitura, que é sempre descoberta, e dizia que os livros estavam vivos e falavam com ele.
Fui logo buscar os Cem Anos de Solidão para ler aquela saga de quatro gerações (quantas vezes o fiz já?) e regressar a Macondo e às personagens tão fortes, como o coronel José Aureliano Buendia, o cigano Melquíades, as mulheres como Úrsula ou Remédios, que parecem ter-se tornado materialmente humanas para nos acompanharem pela vida fora. Com emoção percorri aquelas páginas que retratam um tempo em que “o mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome”, e mais uma vez os olhos me caíram sobre a abertura de Cem Anos de Solidão, que é uma grande sinfonia literária tornada património da humanidade. Quem leu, não esquece a narrativa do fuzilamento do coronel Buendía, anunciada nas primeiras linhas e que culmina lá para o meio do romance. Páginas imemoriais de Cem Anos de Solidão, que se tornou no livro mais lido de literatura espanhola, depois do Quixote.
No livro Gabriel Garcia Marquez-Uma Vida, o biógrafo Gerald Martin conta um episódio crucial do destino do célebre romance (Gabo conta o acontecimento na autobiografia Viver para Contá-la): “No princípio de Agosto, Garcia Marquez acompanhou Mercedes aos correios para enviar o manuscrito concluído para Buenos Aires. Pareciam dois sobreviventes de uma catástrofe. O embrulho continha 490 páginas dactilografadas. O funcionário que estava ao balcão disse: “Oitenta e dois pesos”. Garcia Marquez observou Mercedes a procurar o dinheiro na carteira. Tinham apenas 50 e só puderam enviar cerca de metade do livro. Garcia Marquez pediu a quem estava do outro lado do balcão para tirar folhas como se fossem fatias de toucinho fumado até os 50 pesos serem suficientes. Voltaram para casa, empenharam o aquecedor, o secador de cabelo e o liquificador, regressaram aos correios e enviaram a segunda parte. Ao saírem dos correios, Mercedes parou e voltou-se para o marido: “Ei, Gabo, agora só nos faltava que o livro não prestasse”.
Assim nascia um romance universal.

Fernando Paulouro Neves

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