Impérios ao Sol, A Luta pelo Domínio de África, por Lawrence James

em Opinião

Por Mário Beja Santos

“Impérios ao Sol, a luta pelo domínio de África”, por Lawrence James, Edições Saída de Emergência, 2018, põe em dilatado ecrã as ambiguidades deste conceito de progresso e de missão civilizadora e de ocupação das potências coloniais, tal como se forjou a partir de 1830, aproximadamente; desvela uma luta sem quartel para tomar posse de domínios por todo o continente, entre 1882 e 1918, no Egito e no Sudão, na África Austral, no Congo, em combate religioso, com raríssimas exceções, África passou a ser dominada pela Grã-Bretanha, pela França, pela Bélgica, por Portugal, mas também pela Alemanha, Itália e Espanha; assistimos à ascensão dos nacionalismos, à presença de contingentes africanos em duas guerras mundiais para medir as consequências do que se seguiu, aproveitando a boleia da Guerra Fria; e de 1945 a 1990 o continente africano foi mudando de look e natureza, todos os povos se encaminharam para a independência; e assim chegamos aos últimos dias da África branca, Nelson Mandela era o símbolo da reconciliação, operou o que seria impossível, segundo muitos.

É uma síntese de enorme valia, apesar de lacunas incompreensíveis, como aquela que envolve a apreciação que faz do Império Colonial Português em que reduz a luta anticolonial a Angola e Moçambique, não há uma só palavra sobre o que se passou na Guiné e que foi determinante para a nossa descolonização, vê-se que o conceituado professor não investigou devidamente o que foram, e como atuaram, os movimentos nacionalistas nas colónias portuguesas. E vamos ao que há de mais relevante nesta obra.

Ficamos a conhecer a mentalidade dos viajantes e comerciantes, as rivalidades entre a França e a Grã-Bretanha, a presença inquietante da Alemanha. Sigamos a cronologia.

Em 1830, não sem barbaridade, as potências europeias começaram a entrar em África a pretexto da missão civilizadora, formalmente a escravatura acabara, era preciso pôr termo ao comércio de escravos, mesmo entre africanos, era indispensável construir fábricas como construir escolas, abrir espaço para as missões, construir infraestruturas colossais, desde os caminhos-de-ferro aos portos. Nem tudo foi fácil para as grandes potências, a Grã-Bretanha foi hostilizada no Egito, a França teve muitos amargos de boca na Argélia, a guerra anglo-bóer revelou que mesmo a gente dita civilizada era capaz de entrar em guerra por causa de conceitos raciais.

A implantação do colonialismo no Norte de África era tema prioritário para a França e Grã-Bretanha. A Espanha envolveu-se no Marrocos espanhol, não provocou tensões entre as principais potências colonizadoras, França queria Argélia, a Grã-Bretanha precisava do Egito e do Sudão, ambos se impuseram sem quaisquer inquietações de práticas brutais. A etapa seguinte foi a partilha de toda a África, numa cronologia datada de 1882 a 1914, havia que estabelecer regras para a presença belga no Congo, a Alemanha pretendia expandir-se, a Grã-Bretanha tinha o projeto de ligar o Cabo ao Cairo, a França controlava a parte de África situada a Norte do Equador, dominando o Sara até à fronteira oeste do Sudão, e a grande fatia de território para Sul, hoje ocupada pela República Centro-Africana, o Congo e a Guiné. Nenhum caminho-de-ferro transcontinental ligava o Oceano Atlântico ao Mar Vermelho – a Grã-Bretanha encarregara-se de o impedir. A Conferência de Berlim foi conclusiva, mas manteve grandes tensões, a Itália anunciou invadir a província otomana da Líbia, para ocupar o continente, as administrações coloniais recorreram a ameaças, depuseram chefes que se recusavam a assinar os tratados que lhe eram impostos, em desespero de causa recorreram ao terror. E houve uma enorme luta pela África Austral, é aqui que ocorre a humilhação do Ultimato britânico que contribuiria para uma viragem política em Portugal, que aconteceu em 1910.

Ao tempo em que ocorre a pacificação, começou a guerra, Lawrence James introduz o tema das missões, os conflitos entre o Islão e os impérios e o impacto de África na Europa, tratava-se de um desígnio imperial, com ambições económicas mas também científicas, pretendia-se investigar as raças negras, aqui entrou uma antropologia e uma etnografia com caráter manifestamente racista. O autor analisa a ascensão do nacionalismo e como este vai desaguar em nova guerra mundial que foi determinante para as ambições independentistas africanas. O autor detalha cuidadosamente o importante facto de os africanos terem entrado na guerra e terem aprendido a dura lição de que viviam dependentes de umas potências que aspiravam a ser livres.

O período de 1945 a 1957 é apreciado com rigor, fica claro que o Império manteve as antigas hierarquias raciais, o que fortemente contribuiu para que os nacionalistas não sentissem dificuldades em irem todos os dias conquistando adeptos. Ademais, nações independentes como a Argélia e o Egito vão alargar decisivamente a dimensão da Guerra Fria a que se segue a descolonização de praticamente todo o continente. Lawrence James observa o Congo e a Rodésia até chegarmos aos últimos dias da África branca, tudo culminará quando o presidente Botha deu o passo, em julho de 1989, para conversações com Nelson Mandela. Os seus objetivos, e os do seu sucessor de Klerk, eram muitíssimo ambiciosos e assentavam na vontade de Mandela de perdoar o passado. Os objetivos foram alcançados com sucesso, os contendores em presença sabiam muito bem que a alternativa era uma guerra civil racial e a anarquia. Doravante, a África do Sul assumia-se como farol da tolerância e da vivência multirracial. Em termos económicos, os grandes do passado continuam a ser os grandes do presente, caso da Nigéria, do Egito, da África do Sul, de Marrocos; potências riquíssimas como o Congo e Angola debatem-se com inúmeras contradições e um elevado número de Estados vive entre a fragilidade e a anomia, de mão estendida à ajuda humanitária e aos projetos da cooperação internacional. A grande novidade é a chegada em força da República Popular da China.

A despeito de erros incompreensíveis, como os que pratica com a presença portuguesa em África, é obra de leitura obrigatória.

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Ultima de Opinião

Cacharolete futebolístico

Os últimos tempos têm sido pródigos em acontecimentos no já prodigioso círculo

A noite do tempo?

Uma das reivindicações mais frementes do feminismo actual reside na do corpo.
0 0.00
Ir para Topo