O rei na barriga, ou o Conde de Cadaval e o Corregedor de Santarém

em Opinião

Na persistência do jogo das desigualdades, a superioridade social, o estatuto dos que se julgam acima das leis, é um vício que fornece abundantes exemplos de titulares de privilégios que conduzem à irracionalidade daquela ideia de que todos somos iguais, mas há sempre alguns mais iguais do que os outros. No fundo, aquela ideia que o Alexandre O’Neill traduziu naquele poema satírico em que adverte que “uma coisa pensa o cavalo/outra aquele que está a montá-lo”.

Nestes dias quentes, de verão à solta, lembrei-me de uma história que António Valdemar escreveu e que vale a pena voltar a ler, pois, como dizia André Gide, “tudo já foi dito antes, mas como ninguém ouve, é preciso recomeçar sempre.

Ei-la, outra vez, com o proveito e exemplo que lhe pode dar a actualidade.

“Há histórias fantásticas, a que o tempo confere redobrada força, pois não faltam comportamentos de sujeitos que se julgam o centro do mundo e que, alarvemente, alardeiam uma condição de superioridade colhida no berço ou expropriada a um estatuto social negociado no mercado das conveniências, onde o dinheiro confere poderes. É sempre de proveitosa leitura daquele grosso volume, intitulado “Discurso Sobre as Obrigações do Vassalo”, que estabelece a dicotomia das servidões”.

Porque os tempos vão como vão, é que me apetece repetir uma história colhida de uma crónica antiga de António Valdemar. Ele, que em questões de memória é imbatível, contou a extraordinária história passada entre o corregedor de Santarém e o duque do Cadaval. Valdemar descreve o poder do duque, “símbolo de abastança económica e domínio político” que “de Melgaço a Lagos, até possuía estradas e caminhos próprios”. Por essa condição, não hesitava em tratar qualquer pessoa por tu. Ora, o corregedor de Santarém não lhe permitiu tal atrevimento.

Retorno a António Valdemar: “Na Biblioteca Nacional de Lisboa existe uma carta ao duque do Cadaval, enviada pelo corregedor de Santarém, insurgindo-se contra essa abusiva forma de tratamento. Talvez seja interessante conhecer o conteúdo da carta, encabeçada por dois superlativos conspícuos e concluída sob os respeitosos auspícios da Divina Providência:

“Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: Se o meu nascimento me pôs nas circunstâncias de V. Ex.ª me tratar por tu… caguei para o nascimento; se o meu honrado cargo, que há muito exerço, de corregedor de Santarém permite que V. Ex.ª me trate por tu… caguei para o cargo. Mas se nem uma nem outra condição consentem semelhante linguagem… caguei para o tratamento. Queira, pois, V. Ex.ª elucidar-me para saber se posso cagar para V. Ex.ª. Deus guarde V. Ex.ª.: O corregedor de Santarém”.

Não faltam por aí sujeitos, com roupagens nobres e veneras, que julgam ter o rei na barriga, que bem mereciam, também, o vernáculo do corregedor. É que, às vezes, não há mesmo pachorra para a sua estupidez e sobranceria.”

 

Fernando Paulouro Neves

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Vasco Pulido Valente, além de brilhante historiador, é dono de cultura profunda,
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