Crónica de uma greve – Por uma educação com rumo e pela valorização dos professores

em Opinião

Por Luísa Teixeira Barbosa

Os professores empreenderam uma das maiores lutas de sempre, na história da democracia portuguesa, pela dignidade e valorização da sua carreira, em prol de uma educação de qualidade, onde imperem a paz e a tranquilidade tão necessárias a uma educação, centrada nos alunos e no país futuro, onde proliferem os valores de cidadania, do entusiasmo, da saúde, da alegria, do bem-estar, da valorização e da criatividade.

Os professores, que estão a lutar pela contagem do tempo integral de serviço, ficaram estupefactos com a comparação do valor do investimento no IP3, no montante de 143 milhões de euros, com o bloqueio no que toca à progressão nas suas carreiras. Não é possível colocar no prato da balança da justiça, tais termos…

O nosso país remeteu para o estrangeiro os nossos melhores jovens, os mais bem formados, os mais bem qualificados, porque temos bons professores, porque investimos na sua formação; vivemos num país que maltrata o setor público, que maltrata os professores; vivemos num país onde trabalhadores não têm condições dignas de trabalho, que são humilhados e maltratados, com o vosso consentimento, vivemos num país que castra a criatividade e não quer saber de quem sofre e quem amarga com as dificuldades que tem em pagar as despesas do seu dia-a-dia da sua casa e dos seus filhos.

Vivemos num modelo de crescente desvalorização, levando a que o ambiente seja cada vez mais difícil, onde prevalece o silêncio e aumenta a desconfiança, diminuindo o estímulo à criatividade, em prejuízo da realização de professores, alunos e funcionários, na busca do sentido de bem-estar na Escola.

Não há sustentabilidade para colocar os professores no lugar justo da sua carreira? Se não há sustentabilidade para a Educação, então não há sustentabilidade para a democracia? e os partidos que o apoiaram até agora, que relevam a educação, são capazes de virar costas aos pilares da democracia?

O quotidiano de uma greve, uma escola adiada

Pois bem, sempre aconteceu…mas quando os líderes não são sustentados por valores e se deixam embalar pelo “canto das sereias” vendo o “sol” como meta única, perdendo a terra e as pessoas.

Na escola continuamos os horários de verão reforçados, para os quais temos uma folha de ponto para assinar às 9h, às 13, às 14.30h e às 16.30h, horários consentidos ainda por leis dos governos de Nuno Crato. Estes estão reforçados com reuniões de avaliação, às quais temos feito greve marcadas para as 17h e para as 19h (muitos de nós que somos de fora de Santarém, temos de permanecer na escola durante todo esse tempo das 9 às 19h…. E, algumas vezes estamos na escola sem serviço distribuído, o que significa que podemos levar o tricot, a renda, ou a bimby, melhor ainda, todos os papéis que se acumulam na nossa secretária de casa e todos os documentos que se acumulam nos computadores e pen´s. E mais interessante são os serviços distribuídos, então, surgem-nos serviços como: “Turmas, Biblioteca, tarefas do Departamento e “etc.” ou “outros”….tarefas realmente muito importantes, muito interessantes mesmo: porque estes poderão ser convertidos em qualquer coisa inimaginável, como: ajudar a Direção a preencher grelhas ou fazer emails a responder aos encarregados de educação ou outro qualquer serviço administrativo ou burocrático – aliás todos sabem quantas tarefas diferentes e burocráticas podem os professores desempenhar? Todas! Nós até estamos muito bem preparados: temos licenciaturas, mestrados, doutoramentos, estágios profissionais, somos obrigados a fazer formação ao longo da vida (ou profissional?), muitas vezes paga, para podermos progredir. E as mulheres professoras, sabem? Todas e mais uma…porque somos capazes e competentes, porque fazemos as escolas desenvolver-se e os alunos florescer….porque são eles os que mais merecem o nosso empenho.

Neste ano de greve que já vai na 4.ª semana, existem muitos trabalhos sobrepostos às reuniões de avaliação, as quais não se têm realizado devido à greve. As reuniões têm duas horas de duração: o professor que faz a greve interrompe o seu contrato de trabalho, falta duas horas que lhe são descontadas; os colegas esperam na reunião 15minutos, para confirmar a ausência de um professor e, logo de seguida, os restantes professores correm para as tarefas que a Direção lhes destinou, em mapas descritos em excel, muito organizados e certinhos….tudo muito perfeito…pela forma …Tal não deviam fazer, pois a reunião tem o período de duas horas e ninguém devia realizar nesse tempo qualquer tarefa, mas sabem porque o fazem? Porque foram ameaçados de não terem férias este ano, de não irem de férias este ano, ou de atrasarem as suas férias, ou de serem chamados em férias, enquanto todos esses serviços e tarefas não forem concretizados.

Com os cortes e congelamentos que tivemos desde 2005, os professores com 20 anos de serviço, estão a receber cerca de 1200€, os professores com 25 anos de serviço estão a receber 1300€, os professores com 30 anos de serviço estão a receber 1400€ e temos professores a trabalhar com 60 e 63 anos de serviço que ganharão um pouco mais (1700€), mas cujo serviço é igual ou de maior responsabilidade de que os mais novos e, porque se enganam, esquecem alguma coisa ou erram em algumas grelhas, são desde logo convocados e chamados a atenção pelos colegas colocados hierarquicamente acima, fazendo-os crer que são incompetentes e irresponsáveis

Os mais velhos, que se reformarão aos 66 anos de idade, terão com 44 anos ou 46 anos de serviço, descontam tanto como três ordenados mínimos para IRS, ADSE e Caixa de Aposentações são pressionados, humilhados e desvalorizados, pelas direcções mas também pelos sucessivos governos pelo menos desde 2005: o trabalho do professor, além da quantidade enorme de turmas e alunos, é essencialmente burocrático, e as responsabilidades caem somente sobre os professores, tornando as horas de trabalho não letivo muito cansativas, originando descontentamento e, até, doenças e acidentes, em algumas situação. O trabalho letivo é aquele que maior ânimo nos dá, mas que não havendo estruturas locais que nos protejam dos conflitos se tornam muito penosas… assim, os professores mais jovens, contratados, estão a substituir os que estão doentes, por alguns meses, ou, quando muito, um ano inteiro, se tiverem sorte. São jovens que vêm de Leiria, Porto, Aveiro, ou de outros pontos do país, e ganham miseravelmente, pois a maioria deles (não se percebe porquê) não têm horário completo. Conheço os casos vários colegas, cujo ordenado não chega ao fim do mês, vivem com os pais que os ajudam, não podem constituir família porque não há futuro para eles, recebem 700€ por mês e têm de pagar quarto e transporte, entre outros gastos normais. Há situações de colegas jovens, contratadas, em regime de substituição, que, sendo mães, são forçadas as percorrer 160 km todos os dias, a fim de amamentar os seus filhos, sem lhes ser facilitada, nessas ocasiões, a marcação das reuniões de avaliação, respeitando o disposto na lei aplicável para o efeito. E, sendo os horários incompletos, quanto levam para casa, todos os meses? Cerca de 500€! Dá para quê? Somente, para as viagens!… Tais professoras estão a trabalhar unicamente para o tempo de serviço Exclusivamente para isso, com todos os prejuízos daí advenientes. Outros e muitos mais episódios poderiam ser referidos. Muitos outros foram contados nas redes sociais e a opinião pública prefere fechar os olhos e entregar os seus filhos e familiares a uma escola onde os professores são altamente maltratados, desvalorizados, humilhados e pouco dignificados.

Os professores mais velhos não se podem reformar, os professores doentes não podem reformar-se por invalidez, os professores jovens não têm qualquer hipótese de entrar no quadro, na carreira….é esta a educação que queremos? Será esta uma educação de qualidade que queremos todos para os nossos filhos?

 

2 Comments

  1. Como eu me revi neste relato! Realnente, é mesmo a vocação de ser professor que vinga, porque o retorno social e por parte dos nossos governantes é péssimo!
    Fico triste , também, por ver o prazer que alguns diretores têm em amachucar oa seus pares.Pares, sim! Porque, embora eles pensem que são diretores, só o são temporariamente.Eles ESTÃO diretores!
    Temo que, com esta arrogância, os professores vão perdendo a sua autoestima e se tornem autómatos a cumprir as burocracias e a contribuir para o desenvolvimento duma geração que , ao contrário do que alguns pais pensam, terão o seu caminho cada vez mais complicado! Mas isto, sou só eu a falar!

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