Zona de perecíveis – António, filho de Pedro

em Opinião

Ainda não são onze horas e tenho intervalo na labuta diária até às dezassete. Voo para casa, antecipando mentalmente as tarefas imediatas a cumprir: ficar descalço, substituir calças por calções, tirar a cerveja do frigorífico, pôr o cachecol à janela, ergonomizar o sofá e assegurar a Nosso Senhor Cristiano que confio n’Ele e no(s) Santos. À uma da tarde começa o Portugal-Marrocos.
Sucede que, como é ainda cedo, faço um zapping mecânico e dou com uma entrevista, na TVI, que me concita a atenção: Manuel Luís Goucha conversa com António Rolo Duarte, Filho de Pedro Rolo Duarte (falecido há pouco tempo, como decerto sabem). Para além do cariz temporão da morte deste jornalista, aos cinquenta e três anos, vítima de doença oncológica, doeu-me que os jornais, a rádio e a televisão tenham perdido um senhor importante, que escrevia e falava bem, que era inteligente, que tinha sentido de humor, que era livre & desassombrado. É dele uma frase verdadeiramente extraordinária (que debati com os meus alunos de Jornalismo, na década de 90 do século XX) – cito de cor: “O Expresso é o maior jornal português; o Público é o melhor; O Independente é o mais importante.” Tudo, à época, uma verdade pura e rigorosa.
Na entrevista, conduzida de forma respeitosa, segura e amável, Goucha – que é muito mais que aquele boneco pimba de concursos e gritarias de feira – convidou António a falar do Pai, a propósito de um livro (que estou a ler) intitulado Não respire. É uma edição póstuma, que o jornalista concluiu no cais derradeiro da sua existência. Pai e Filho chamaram-lhe, no durante da sua concepção, e rindo-se ambos da pompa vocabular, “a obra”. Encontramos aí memórias, crónicas, episódios cheios de humanidade e vizinhança, reflexões sobre o Presente tão exageradamente fugidio e provisório, apontamentos do encanto e do desencanto, vidas.
Realço o facto de fazer parte desse volume uma espécie de livro-dentro-do-livro intitulado 16 Ideias Para Um Rapaz de 16 Anos Levar Consigo Para Longe. Trata-se de um opúsculo expressamente escrito por Pedro Rolo Duarte em vésperas de António partir – sozinho – para a Austrália, onde faria o ensino secundário. O Pai, apesar de assustado com a distância a haver, deixou-o ir, mas passou-lhe para as mãos um conjunto de recomendações (sábias, sensatas, divertidas) que deveriam servir também para o adulto, ainda que ausente, estar com o jovem.
Ouvi algumas destas “ideias”, nem todas originais por aí além (sê tu próprio, persegue os teus sonhos, etc.), outras brilhantes (por exemplo, o importante, em relação ao medo, é o que fazemos com ele). Identifiquei-me com António, lembrando-me do meu Pai, ausente há muitos anos, e principalmente com Pedro, lembrando-me da minha Filha, para quem um dia não serei senão memória. Perguntei-me: que reterá de mim a minha Filha quando eu já não estiver para a aconselhar, de viva voz, sobre a existência? Talvez, ocorre-me agora, uma frase que costumo atirar para a mesa das reuniões familiares ou para a areia da praia de Agosto: o fundamental é distinguir, em cada momento, o essencial do acessório; e, atenção, embora o essencial varie de acordo com o contexto, deve estar sempre ligado aos direitos do Amor e aos deveres da Honestidade. Pelo sim, pelo não, inscrevo isto numa crónica de jornal, por ser da natureza da escrita durar mais do que a tão falível circunstância de se estar vivo.
Sumário: no dia 20 de Junho, houve esta entrevista e, depois, um golo mais de Cristiano Ronaldo. Ganhei o dia por dois a zero.

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