Através do Espelho – A classe média e os impostos

em Opinião

Recorrentemente, surgem relatórios a mostrar-nos sempre a mesma realidade: que é a classe média que paga o grosso do IRS — o imposto sobre o rendimento das pessoas singulares. A Autoridade Tributária, com base nos dados de 2016, veio há dizer-nos mais ou menos a mesma coisa. Mas descanse, caro leitor, que não lhe vou dar uma seca com números e estatísticas. Em contrapartida, proponho-lhe que tente adivinhar quem são os personagens “A” e “B” do diálogo seguinte:

A:- Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até ao pescoço…
B:- Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar à prisão. Mas o Estado… é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se… Todos os Estados o fazem!
A: – Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criámos todos os impostos imagináveis?
B: – Criando outros.
A: – Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
B: – Sim, é impossível.
A: – E sobre os ricos?
B: – Os ricos também não: Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.
A: – Então, como faremos?
B: – Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer, e temendo empobrecer: É sobre esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!

Não sei, mas palpita-me que uma boa parte dos leitores tenha sido levada a pensar que o B pudesse ser um qualquer primeiro-ministro e o “A” o seu ministro das finanças… Pois bem, o personagem A é Colbert, que foi ministro e superintendente para as construções de Luís XIV, e “B” é o cardeal Mazarino, primeiro ministro do Rei Sol, tendo o diálogo sido retirado da peça teatral Le Diable Rouge, de Antoine Rault.
Independentemente de alguns pormenores circunstanciais — como o facto de hoje em dia pouquíssimos devedores irem parar à prisão ou de no tempo de Luís XIV os offshores para os ricos esconderem as suas fortunas serem ainda uma raridade —, a verdade é que há coisas que já vêm de longe: quando se trata de pagar impostos, a classe média é que se lixa. E dizer lixada é meiguice, pois, por vezes, é golpe até ao osso, como diria um dos nossos poetas modernos, moreno, cabelo asa de corvo…

Francisco Monteiro Pereira

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