O milagre de Santarém

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Nasci no ano da EXPO 98. Mal sabia que, passados cerca de 30 anos, a Gare do Oriente e o Parque das Nações me seriam tão familiares. Quando apanho o comboio em Santarém – na nova estação junto ao CNEMA, confortável, funcional e cheia de luz, com o Tejo e a imensidão da lezíria pela frente e um parque de estacionamento desafogado – ainda me lembro do inferno que era ir todas as manhãs apanhar o comboio na estação da Ribeira.
Desde que iniciaram as obras do Projeto Tejo e construíram os açudes rebatíveis de Valada e Santarém, o rio tornou-se navegável até aqui e temos bastantes turistas que vêm de Lisboa. E a povoação da Ribeira nem parece a mesma, com quase todas as casas recuperadas, com novos equipamentos, mais habitantes, mais restaurantes, os antigos edifícios da CP viraram alojamentos… enfim, a velha Scallabis apanhou o comboio do futuro.
E há um novo brilho nos olhares da população, nos cafés deixou de discutir-se horas a fio as tretas do futebol e da má-língua, para se falar de sonhos acordados e dos projetos que vão ser concretizados.
A recuperação do tão falado Centro Histórico é uma realidade (que ombreia já em número de visitantes com o de Évora), apostou-se na mobilidade amiga do ambiente, construíram-se 3 elevadores de ligação ao planalto (um entre a Ribeira e São Bento, outro entre o CNEMA e o Sacapeito e o terceiro entre S. Domingos e a Rafoa), desatou-se o nó do que fazer com o Campo Infante da Câmara, fez-se um plano com pés e cabeça para a ocupação da antiga EPC e o espaço está a ficar uma maravilha, havendo até na fachada principal um memorial lindíssimo, para que os portugueses não esqueçam todos os militares que acompanharam Salgueiro Maia na madrugada libertadora de 25 de Abril de 1974…
E pasme-se, conseguiu-se inverter a tendência de queda do número de espetadores nas touradas, transformando-as em espetáculos mais lúdicos e menos guerreiros. Como? Bem, não foi fácil convencer os mais tradicionalistas, mas desde que se acabou com as farpas, e se passou a usar um mecanismo eletrónico em que se acende uma luz de cada vez que o touro é tocado no cachaço – como acontece na esgrima – a monumental de Santarém (que é agora uma arena polivalente e confortável para a realização de diversos espetáculos) passou a registar as enchentes de outrora.
E, não menos importante, começou a dar-se a importância devida à atração de empresas modernas e inovadoras. Santarém e Cartaxo avançaram com a criação do Valleypark, a cerca de 10 km da cidade, mesmo encostado à A1. Hoje estão lá instaladas algumas empresas de elevado nível tecnológico, que criaram já meio milhar de novos empregos novos. Já entreguei a minha candidatura numa empresa de biotecnologia, e tenho fundadas esperanças que seja admitido.

— Eh, pá, deixei-me dormir outra vez! Querem ver que vou perder o comboio para Lisboa, com a fila do trânsito a chegar a Vale de Estacas, com a passagem de nível fechada, com a zona atravancada de carros! Que porra de vida esta…

Francisco Monteiro Pereira

4 Comments

  1. Que grande sonho Francisco…!Criar um projeto é idealizar ,agora só mesmo a realização,a materialização ….
    A cidade dos Scalabitanos , merece o regresso ao movimento das ruas no centro histórico,e a tudo o que mais mencionou !Sonhou!!??

  2. Quando li este texto, pensei ” olha m’esta! onde é que eu tenho estado que não dei por nada?” Afinal foi um sonho 🙁 Mas parece mesmo real! Sim, continuemos a dormir… Ou vamos lá a acordar que há muito que fazer…. Muito bom. Obrigada. Continuação de boa escrita

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Vasco Pulido Valente, além de brilhante historiador, é dono de cultura profunda,
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