O festival das letras

em Opinião

Acabou em grande (sem se saber em quê), o Festival das Letras de Santarém, sob o lema (cf. Programa oficial), de “fomentar todo o potencial literário” da cidade das pombinhas doces. Louve-se esta intenção, fina como pão de ló, pois era tempo que alguém firmasse o que tem andado tanto ao pendurão nestes últimos 3000 anos. Refere o mesmo programa que “a leitura das palavras anda atrelado ao conhecimento”, sem especificar se este (o conhecimento) vai levado do freio ou não. Harold Bloom afirma que sim, contra o pensamento mais travado de Celestino Graça, exegeta da Feira Nacional de Agricultura e conhecedor de todo o tipo de atrelagens.
O certo é que recebi, vinda de um crítico impressionista, algumas palavras a jurar que “o festival foi um exercício kitsch; adulador da falta de letras dos jovens; sem profissionalismo; a mínima noção do que é promover um livro; sequer a poesia, símbolo maior de 20 séculos de poesia nessa cidade; muito menos de como integrar tudo isso na modernidade, sem misturas descabidas ou parolice técnica”. Pergunta-me depois se não concordo com ele (direi no fim), e acrescenta que não se pode fomentar uma cultura literária, histórica, semiológica, científica etc. sem ir às raízes dela.
No caso das letras dá-me exemplos citando autores nascidos, de visita, ou relacionados, com a dita cidade, desde “o mítico Ulisses (Homero); aos escritores romanos (Júlio César etc.); à poética árabe (Bassame, Ibn Sara etc.); aos provençais das trovas (Dinis o das “ai flores” arrancadas etc.); os do assombrado Cancioneiro de Resende; o torto genial do Camões; os arcádicos clássicos (Bocage etc.); os românticos que não só os sabidos Garrett e Herculano; os realistas satânicos (Azevedo); surrealistas e libertinos (Luiz Pacheco, Pedro Oom – quem? – etc.); até aos obscuros e apolíneos contemporâneos (Herberto, Belo, Graça-Moura etc., este que até foi lá da edilidade, da cor dela, e é o maior clássico moderno das letras nacionais)”.
Apavorado com esta enumeração caótica desatrelei-lhe o discurso, aliviando as sortes “que nem tudo foi mau; que houve (cf. Prog. dia 22), em lugar desses todos, o único escritor anunciado no programa, mas logo a famosa R. C. Vicente; que é normal, à primeira, dar uma no cravo do conhecimento outra na ferradura do atrelado, sem com isso desconjuntar o andamento futuro deste festival de letras redondas (feito na Casa do Campino, note).
Riu-se, mais manso, mas logo a seguir dispara-me uma parelha de exemplos demolidores “que a organização nem sonhou que o dia 23 era o Dia Mundial do Livro; que nada o indica no programa; que visse o programa oficial (dia 27), onde se anunciava a exibição paralela às letras de um “Fitness Food-Comer para atingir objectivos”, sem ninguém explicar quem come o quê, ou é comido. Mas enfim, que este Festival de Letras atrelado a um fitness sempre foi melhor que a uma roulote de torresmos indigestos…” Ou a um nabo gigante (cf.Prog.dia 26), E desligou.

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Vasco Pulido Valente, além de brilhante historiador, é dono de cultura profunda,
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