Da Colômbia a Santarém

em Opinião

Cruzámo-nos por um acaso. Ele de bicicleta, bandeira da Colômbia a cobrir a bagagem, perguntou-me qualquer coisa, que não descortinei, ao que lhe respondi em inglês – sim, parecera-me inglês! Bem constituído, pele tostada pela pedalada sob a intempérie, ao sol e à chuva, respondendo-lhe eu na língua anglo-saxónica, logo levei alto e bom som: “Sou colombiano, abaixo o imperialismo americano!” Retomando o diálogo, agora em espanhol, o homem amainou. Mostrou-me outra bandeira, esta da Catalunha. Punho cerrado, o grandalhão vociferou: “Viva a Catalunha independente!” Isto que vos conto passou-se à tardinha da véspera do 25 de Abril, e achei todo aquele “revolucionarismo” bem a propósito da data. Acalmado o espírito bélico, contou-me que ia para Lisboa assistir às manifestações da Revolução, sempre seria mais festejada do que em Santarém. Seguiria para a Estação, tirava um bilhete de comboio e ala moço!? Disse-lhe que não, pois teria naquela noite uma réplica encenada no espaço, que fora a Escola Prática, de onde partira Salgueiro Maia e os seu homens. Sem me deixar continuar, falou dos acontecimentos daquela madrugada como se os tivesse vivido. Alejandro, esse o seu nome, tinha a lição bem estudada. Só não sabia onde era a EPC… Sossegando-o, pedi-lhe para que me seguisse, indicar-lhe-ia o caminho. Eis-nos, então, defronte do portão daquela que foi a antiga Porta de Armas. Ficou desapontado (e eu também): onde estava o blindado? E como era possível, nem uma menção na parede do antigo Quartel a relembrar o feito histórico? Fiquei sem resposta e senti, pelas palavras e olhos daquele estrangeiro, o desleixo citadino. Não fora a estátua de Maia, à entrada da cidade, e nada faria lembrar o “Capitão da Liberdade”! Alejandro, atónito, falou de cidades destruídas, com substância histórica mas traídas, governadas por caprichos arbitrários, tão longe de tudo pela incúria, reduzidas à mediocridade pela mediocridade dos seus gestores. Enfim, Alejandro agradeceu-me a companhia e só no outro dia partiu para Lisboa!

Arnaldo Vasques

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Vasco Pulido Valente, além de brilhante historiador, é dono de cultura profunda,
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