Chamusca cria Confraria da Espiga

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A Câmara Municipal da Chamusca vai dinamizar a criação da Confraria da Espiga, apelando à comunidade do concelho que se junte a esta iniciativa que procurar revitalizar a tradição da apanha da espiga e projetá-la fora de portas do concelho atraindo outros participantes.

A tarefa de constituição da confraria será liderada pela vice-presidente da Câmara da Chamusca, Cláudia Moreira, por delegação do presidente, e será ela quem vai contatar com as pessoas da sociedade chamusquense para que deem contributos para esta iniciativa. O anúncio foi feito esta quinta-feira, dia 10 de Maio, feriado municipal, dia forte da festa do concelho, precisamente durante a recriação da apanha da espiga, uma atividade promovida pela Câmara que levou alguns dezenas de pessoas à zona do Moinho da Estada do Campo para aqui fazerem a apanha da espiga, com materiais já fornecidos pela autarquia e outros apanhados ali em plena lezíria. Este foi também um momento de partilha, de animação musical, de merenda e de inauguração das obras de requalificação deste moinho, que é um ponto de referência na paisagem desta zona do concelho e que foi, em tempos idos, um ponto de passagem e de descanso, para animais e pessoas que trabalhavam no campo. Também por isto, a Câmara da Chamusca colocou na parede do moinho um azulejo com a inscrição “homenagem ao trabalhador do campo”.

“É um avivar de memórias de todos”, frisou o presidente da Câmara, Paulo Queimado, durante a inauguração, recordando que este foi também espaço para o gado beber água, uma particularidade que foi mantida com a requalificação de um fontanário ali existente. “Um povo sem memória é um povo sem futuro. Por isso queremos perceber e dar a conhecer o que somos hoje como comunidade e aquilo que fomos”, acrescentou o autarca.

Paulo Queimado entregou simbolicamente um ramo de espiga à sua vice-presidente, Cláudia Moreira, para passar o testemunho desta missão de criar a confraria.

De referir que também nesta quinta-feira de Ascensão, a União de Freguesias de Chamusca e Pinheiro Grande organizou, como o faz há décadas, a apanha da espiga no campo, logo pela madrugada, levando algumas pessoas para a festa da espiga. A Câmara optou por fazer o evento de tarde, depois da entrada de toiros, recuperando o que terá sido uma tradição antiga de juntar as pessoas na apanha da espiga, depois da espera de gado, numa merenda partilha no campo, seguindo depois esse grupo para a corrida de toiros que se realiza normalmente à tarde.

 

A tradição da espiga

Segundo o historiador António Matias Coelho, que tem ligações de décadas à Chamusca, a festa de Quinta-feira de Ascensão, agora associada à elevação de Cristo ao Céu, é anterior ao cristianismo e tem “outros significados não menos profundos”. O dia é sagrado e já no judaísmo se assinalava como um dia de ascensão de Moisés ao monte Sinai para receber as Tábuas com os Dez Mandamentos. É também dia de pedir fertilidade e prosperidade, sobretudo no campo da agricultura e dos bens da terra. Daí surge a tradição de fazer um ramo de espiga que serve de ritual para invocar o divino. A espiga simboliza o pedido de fartura de pão para o ano inteiro. “A apanha da espiga, mesmo hoje, quase nunca é um ato solitário. Em tempos, até há cerca de meio século, saía-se para o campo em ranchos, sobretudo de rapazes e raparigas, mas que integravam também gente de todas as idades, incluindo crianças e idosos. Levava-se o farnel que se partilhava à sombra das árvores mais frondosas e então colhiam-se as várias espécies para compor, com arte e afeto, o raminho benfazejo”, escreve o historiador. O ramo de espiga não terá uma única composição fixa e varia de terra para terra, embora com elementos comuns. NO Ribatejo e na Chamusca usam-se três espigas de trigo, três malmequeres amarelos e três papoilas, mais um raminho de oliveira em flor, um esgalho de videira com o cacho em formação e um pé de alecrim ou de rosmaninho florido. As espigas querem dizer fartura de pão; os malmequeres, riqueza; as papoilas, amor e vida; a oliveira, azeite e paz; a videira, vinho e alegria; o alecrim ou rosmaninho, saúde e força.

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