A decisão que a Direcção-Geral das Artes (DGA) tomou de excluir mais de uma dezena de prestigiadas companhias, de apoio para o biénio 2018/2021, configura não só uma grave discriminação, como uma ofensa grave ao direito de acesso à cultura e à sua produção. A decisão é moralmente inaceitável, pelo seu carácter discriminatório, e tão absurda é, na sua própria expressão política e territorial, que parece construída não para apoiar o Teatro, mas para extingui-lo cirurgicamente, ao longo do território nacional.
Com esta decisão, a DGA arvora-se em comissão liquidatária de várias companhias. É a asfixia total, a morte com carácter imediato. Esta realidade encobre uma outra: são estas políticas que impõem a persistência das desigualdades e configuram o país do traço ao meio, desenhado pela grande cabeça de Lisboa e suas adjacências litorais; são estas políticas que desmentem e deitam por terra as promessas de uma boa descentralização, com excelentes missões para o interior. Depois, há outra coisa: os júris. Estas entidades nebulosas, sem rosto (o público não conhece as criaturas), “matam”, com a maior irresponsabilidade, companhias de Teatro que se tornaram instituições de referência na sociedade portuguesa.
A decisão da DGA provocou tal banzé que o Primeiro-ministro e o ministro da Cultura já vieram anunciar um reforço de verba para responder à situação. Acredito, por isso, que não deixarão de impor a reversão destes resultados provisórios. A não ser assim, é uma vergonha completa. Garrett disse um dia que o Teatro é um meio de civilização, mas não pode prosperar onde a civilização não exista. Será que o autor de Viagens na Minha Terra continua a ter razão?
Apostila I – Para se ajuizar dos malefícios da DGA (muito pior que os do tabaco!), à escala do país, basta conferir companhias que não receberão apoio: Teatro Experimental de Cascais, duas companhias profissionais com sede em Coimbra – O Teatrão e Escola da Noite -, o Centro Dramático de Évora (CENDREV), o Teatro das Beiras, da Covilhã, assim como o Teatro Experimental do Porto, a Seiva Trupe, o Festival Internacional de Marionetas e o Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI), também do Porto, o Teatro de Animação de Setúbal, a associação GRIOT, Chão de Oliva, o Teatro dos Aloés, a Casa Conveniente e a Cooperativa Cultural Espaço Aguncheiras.
Apostila II – A notícia, conhecida sexta-feira santa, foi uma imensa amêndoa amarga. O Bloco de Esquerda, pela voz de Catarina Martins, já protestou. E o PCP quer o ministro da Cultura no Parlamento. Há movimentações um pouco por todo o país. Até o PSD já divulgou um comunicado. É caso para dizer ao que isto chegou… Segundo o PCP, os apoios foram atribuídos a 19 candidaturas da região Norte, 18 da Área Metropolitana de Lisboa, seis da região Centro, cinco do Alentejo e duas do Algarve. Para o Partido Comunista, foram esquecidos “percursos de companhias e estruturas que ao longo de anos tiveram e têm um papel incontornável na vida cultural do nosso país, como é o caso do Centro Dramático de Évora, da Escola da Noite, do Teatro dos Aloés, do Teatro das Beiras”.
Apostila III – Significativos são os protestos de figuras do Teatro e de Companhias a tomarem posição altamente crítica sobre as decisões da DGA. São José Lapa, da cooperativa Espaço das Aguncheiras, Elsa Valentim e Jorge Silva, do Teatro dos Aloés, Isabel Medina, da Escola de Mulheres, Maria João Luís, Albano Jerónimo, Carlos Avilez, do Teatro Experimental de Cascais, Miguel Jesus, de O Bando, Cristina Carvalhal, Ana Brandão, Martim Pedroso, Dinarte Branco, Mónica Garnel, Miguel Sopas e Levi Martins, da Companhia Mascarenhas-Martins, Fernando Sena, do Teatro das Beiras, João Mota… foram alguns dos agentes que encheram a sala do CAL-Centro de Artes de Lisboa. Atores, encenadores e programadores entendem que os problemas que atingem o teatro são uma “questão política”. Os agentes do teatro vão agregar-se numa plataforma para contestar o processo de atribuição das verbas plurianuais, que consideram estar a destruir o setor.
Fernando Paulouro Neves