Estado de Sítio – A cruzada anti russa

em Opinião

Desde a campanha eleitoral para as presidenciais, tanto nos Estados Unidos como em França, ao referendo na Catalunha, ou ao Brexit inglês, a suposta ingerência russa nestes casos continua a dar que falar na “grande” imprensa. Por outras palavras, a obsessão anti-russa continua na ordem do dia, alimentada pelos media da propaganda que, por definição, não investigam nem confirmam a informação. Mesmo sem provas, esses media permitem-se fazer acusações peremptórias, ou então recorrem às astúcias linguísticas do tipo “condicional jornalístico”: “teria sido observado”, “não causaria admiração” e às tradicionais figuras de retórica, “parece que”, “mais que provável”. É o caso, frequente, de acusar o governo russo de ter utilizado as redes sociais para favorecer a campanha eleitoral de Donald Trump. Que se recorde a espantosa pergunta inventada pelo grupo Hilary Clinton, após a sua derrota: “What happened?” (Que foi que aconteceu?), a apontar para a ingerência da Rússia, sabendo que uma larga fatia de republicanos com ela não quer aproximações. Mas que autoridade têm os Estados Unidos nesta matéria, quando o país já contabilizou 80 ingerências em processos eleitorais desde a 2ª guerra mundial!? Não é só em tempo de eleições que a russofobia se revela: já o militantismo negro norte-americano dos anos 60 nos Estados Unidos fora atribuído à ingerência de Moscovo! Ou seja, foram os vermelhos, os soviéticos, que estiveram por detrás das lutas dos direitos cívicos e que levaram os negros a se revoltarem. Actualmente, a grande imprensa destaca, desta vez, os laços de Moscovo com as extremas-direitas europeias! Também serve. A Rússia, para essa imprensa é pau para toda a colher! O que importa é o seu isolamento. A recorrente obsessão anti-russa polariza, mobiliza a opinião, como se de uma projecção se tratasse, mecanismo de defesa que consiste em projectar sobre “o outro” os malefícios do próprio. Polarizar as problemáticas em Putin e Trump, ou em Putin e Macron, e assim por diante, são técnicas redutoras de diversão. O Ocidente fez também circular que o actual presidente francês foi tocado pela pirataria cibernética russa. Mais ainda: o “demónio russo” interferiu no Brexit. É Theresa May quem o diz: “Nós sabemos o que vocês fazem mas não conseguireis”. É o velho truque de inventar um inimigo exterior para afastar as atenções da desastrosa governação britânica. Theresa May, ao diabolizar Putin, já esqueceu a musculada participação do seu país ao lado dos Estados Unidos na porca invasão do Iraque em 2003, à margem do direito internacional, à procura de armas de destruição que não existiam?! E mais tarde, em 2011, o sórdido envolvimento inglês na Líbia? Não se fica por aqui o rosário das acusações de “Sua Santidade, o Ocidente” contra a maldição russa da ingerência, apesar de sistematicamente negada, por vezes ironicamente, pelo lesado. Foi divulgado que grupos na Rússia (e na Venezuela!) aproveitaram redes sociais para promover a causa separatista catalã. Por outro lado, noticiava o “Washington Post“ de 2 outubro passado: “Referendo na Catalunha: a Rússia ganhou”. A Espanha, obviamente, também apostou na ingerência russa. Não será difícil de entender o porquê desta determinação em neutralizar a Rússia, cujo pecado é a autonomia de não se submeter aos Estados Unidos e ter feito alianças asiáticas inadmissíveis, em particular com a China: a “Organização para a Cooperação com Shangai” data de 2001, sem falar nas cumplicidades com o Irão, Síria e Brics. Já lá vai o tempo em que Brzezinsky, ex-conselheiro do presidente Jimmy Carter, defendia o esquartejamento da Rússia em 3 Repúblicas, uma europeia, outra na Sibéria”, a 3ª no Extremo-Oriente” (M. Collon Investig’action). Separar o Cáucaso e a Ásia Central ia assim permitir às multinacionais americanas controlar o petróleo, gás e minerais. Mas o plano falhou!

António Branquinho Pequeno

 

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Ultima de Opinião

O toureiro da raia

Eis-nos no Carnaval do Touro 2018, em Ciudad Rodrigo, que junta milhares
0 0.00
Ir para Topo