Editorial – O guarda-rios Arlindo

em Opinião

A poluição no rio Tejo banalizou-se no quotidiano das notícias, e na passividade das autoridades ambientais. Isto apesar de não haver praticamente semana em que nestas páginas não registemos mais um deplorável incidente de poluição num troço do rio. Quase sempre por acção vigilante do ambientalista Arlindo Marques – que uma vez mais ilustra a manchete desta edição de O Ribatejo. Um voluntário “guarda-rios” que sofre as dores de um rio doente. Denúncias que nos revela em imagens e filmes que coloca regularmente na sua página de facebook. Conhece o rio como ninguém, cada troço, cada margem… e aqueles poucos pescadores que ainda vivem do que o rio lhes dá. Há anos que Arlindo percorre – nas suas horas vagas, uma vez que é guarda prisional de profissão – quilómetros e quilómetros de rio para nos acordar com as imagens das mortandades de peixe e os lençóis de espuma que se acumulam ao longo das margens do Tejo. Esta semana que passou, Arlindo foi, finalmente, voz audível no país; e a ressonância da sua denúncia nas televisões teve os reflexos que se conhecem: o Ministério do Ambiente a prometer reforçar a fiscalização, agora diária, nas zonas críticas do rio, e a obrigar a Celtejo a reduzir em 50% o caudal de efluentes que despeja no rio, ainda que apenas por alguns dias. Essa mesma empresa que “premiou” Arlindo Marques com um processo por difamação em tribunal e um pedido de indemnização de 250 mil euros. É urgente solidarizarmo-nos com este corajoso ambientalista, que tem sido a voz solitária e pungente de um rio doente. E a propósito, o que se passará como Presidente da República, que ainda não disse uma palavra sobre a poluição do rio que lhe banha o Palácio de Belém, nem veio dar um abraço de conforto ao Arlindo? Estará a guardar-se para medalhar o Arlindo Marques no 10 de Junho? É pouco provável, uma vez que o silêncio de Marcelo é hoje mais esclarecedor que as suas copiosas palavras. Certo é que desta vez o Presidente não definiu o combate à poluição como prioridade nacional, nem consta ter exigido respostas urgentes do Governo. Vale-nos Arlindo, para que a poluição não se nos entranhe como um mal sem remédio.

Combatente da liberdade

Morreu Edmundo Pedro, aos 99 anos, feitos a 8 de novembro. Partiu a última vítima do Tarrafal – esse campo da morte lenta que Salazar abriu na ilha de Santiago – para onde foi enviado com o seu pai em 1936, na leva dos primeiros 152 presos políticos; tinha então apenas 17anos feitos. E para que a memória desse tempo negro não se apague, é preciso lembrar os 37 presos políticos que lá morreram, sucumbindo na “frigideira” ou alvo de sevícias às mãos de algozes ao serviço da ignóbil ditadura que teve em Cabo Verde o seu Auschwitz. Testemunho vivo desta repressão fascista, Edmundo Pedro, que conheceu várias prisões e passou 9 anos no Tarrafal, foi um exemplo incontornável de resistência e de verticalidade política. Antes e depois do 25 de Abril. Ele que rompeu com o PCP ainda durante a ditadura e veio aderir ao PS em democracia. Edmundo Pedro partiu a 27 de janeiro último e repousa agora no cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Deixou-nos as suas memórias, escritas em três volumes, a que justamente chamou “um combate pela liberdade”.

Joaquim Duarte

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