Medium – A verdade e o rebanho?

em Opinião

Carlos Matos Gomes

A moda dos aparelhos ideológicos da comunicação – que atuam hoje sob a designação de “jornalismo” e ”comentariado” – passou a ser a da extramoralidade. Assim, decifrando, a intenção do ministro das Finanças ao solicitar um bilhete ao Benfica para um jogo deveria ser, como foi subliminarmente sugerido, a de retribuir esse bilhete com um empréstimo fora da lei, ou um perdão fiscal ao Benfica. Lançada a suspeita, o ministro estaria fragilizado, pelo que só poderia tomar decisões fracas, assumir a sua fraqueza e demitir-se! O presidente da República, grave, sereno e atento aos problemas da Pátria, não se pronuncia.
No fim desta linha de manipulação encontra-se a ideia de que as interpretações são apenas sinais que devem ser utilizados sem preconceitos. A intenção deve ser interpretada sem peias morais, a moral e a realidade, já muito maltratadas, devem ser superadas. É o caso dos promotores das fake news nacionais e internacionais e destes factos comentados à beira-rio, da varanda de Belém.
O que nos é vendido hoje por políticos com máscara de comentadores ou de jornalistas com máscara de políticos, é a mais despudorada especulação. O que temos como comunicação é uma especulação sobre intenções que não se fundamentam em acções, nem na probabilidade nem na verosimilhança delas, nem numa relação causa-efeito. Nem se detém no ridículo. É um diálogo vazio, de perguntas e respostas sobre uma caixa acústica de amplificação de ruídos.
Os especuladores, jornalistas, políticos e comentadores tentam, como foi chocantemente visível nas reportagens e no “comentariado” dos incêndios do Verão, transmitir a ideia de que a vida é uma actividade isenta de riscos, segura, fácil e cómoda e que o responsável por cada um não se afogar é do nadador salvador e do ministro do Mar. No caso dos incêndios a responsável foi a ministra. Essa foi a interpretação do aparelho comunicacional?—?estava muito fragilizada. Ardeu.
É este o estado da arte do discurso dos demagogos arvorados em nossos pastores. A audiência do palavreado de pastilha elástica do comentador Marques Mendes (um paradigma, embora uns furos abaixo do comentador Marcelo), assente na interpretação das suas próprias invenções, para depois as comentar como se fossem realidade, demonstram a sua eficácia. Não interessa que ele tenha dito o mesmo, ou o contrário, no domingo anterior, o certo é que uma multidão o ouviu e no dia seguinte os jornais fazem eco do seu comentário, reforçando-lhe o efeito. Passou a ser tão verdade como a análise de um jogo de futebol antes de se realizar, em que o comentador aprecia os golos que ele próprio afirma que vão ser marcados, mas os programas de antevisão dos jogos também são êxitos de audiência no rebanho.
Para este tipo de manipulação através da interpretação de inventadas intenções, a distinção entre verdade e mentira é a que Nietzsche descreve em Além do Bem e do Mal: “a verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde. O homem do rebanho chama verdade ao que o conserva no rebanho e chama mentira ao que o ameaça ou exclui do rebanho. Portanto, em primeiro lugar, a verdade é a verdade do rebanho.”
Bons tempos, aqueles em que o mérito e o demérito das acções eram avaliados pelas suas consequências, pelo seu bom ou mau êxito! Deles saltámos para o reino da moral: Em lugar do efeito, a moda passou a ser avaliar a bondade e a maldade da causa. Foi e é a questão da justa causa, da guerra justa. As guerras da descolonização são um bom exemplo de causa justa e causa injusta.
Hoje estamos no reino dos efeitos especiais, da extramoral. Enquanto somos sujeitos à interpretação dos clarões, os que atiraram o fogo-de-artifício realizam os actos que não lhes convêm verem expostos e, menos ainda, comentados. A velha técnica do ilusionista, atraindo a atenção para o lenço com o intuito de esconder o truque.
(In medium.com/@cmatosgomes)

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