Estado de Sítio – Os refugiados e a Europa colonial

em Opinião

Refugiados, populações que infelizmente continuam a ser notícia em 2018 e que, ao preço da própria vida, procuram alcançar a Europa, ora por mar, ora por terra, a contornar os obstáculos que lhes levantam, ultimamente a tentar a travessia desafiando os Alpes, pela montanha, com temperaturas de 35 graus negativos. Em França, ao tempo de Mitterrand, já o socialista Michel Rocard, então 1º ministro, afirmava: “não podemos acolher toda a miséria do mundo”, uma fórmula que depois procurou adocicar. Mas a realidade é que hoje esta leva de refugiados às portas da Europa é, em larga medida, criação do colonialismo europeu. Aliás, nem sempre houve refugiados. Que se investigue o massacre das expedições “civilizacionais” ao Congo Belga, ao tempo de Leopoldo II, considerado o maior crime jamais apontado pela História, com milhões de mortos. A prioridade era o marfim e o cautchu. Ocorreu após a Conferência de Berlim de 1885, que assinalou a partilha europeia da África. Hoje, as “expedições” e pilhagens não são sob a bandeira da civilização, mas da democracia. Vem a dar no mesmo. Até quando é que as sociedades permitem que as potências europeias e os Estados Unidos decidam quais os governos que devem ser neutralizados, mesmo que à margem do direito internacional, conforme as conveniências? Quais as sanções económicas a aplicar a uns e outros? E não se trata se aqui de tomar ou não partido pelas opções políticas e as alianças do trio Moscovo-Pequim-Teerão. Trata-se de saber quem são os agressores, que aliás são os do costume, com a diferença que hoje o xadrez mundial é outro, sendo notória a atracção que o trio acima referido exerce não só sobre o Japão, mas também a Índia e a própria Europa! Já lá vai o tempo em que os Estados Unidos manobravam a política com desenvoltura. Por estranho que pareça, Washington e a NATO conseguiram mesmo em 2011 o consentimento de Moscovo e Pequim no Conselho de Segurança sobre a zona de exclusão aérea na Líbia, a pretexto da protecção dos civis! O trágico resultado é conhecido. Depois disso, em 2017 quis-se fazer um remake em Damasco com o argumento das armas químicas, mas não resultou, a resolução desta vez foi vetada. Em suma, hoje o Oceano Índico passou a ser a chave de um novo mapa estratégico, sendo que a Eurásia significa 75% da população mundial e 60% das matérias-primas. É sabido que a China é carente em recursos naturais. Chega a comprar 75% do cobre congolês e 70% do ferro sul-africano. Não é de espantar que Washington pretenda bloquear o acesso da China ao petróleo do Médio Oriente, ao gás da Ásia Central e aos minérios africanos. Mas para isso, os ultras tinham que esmagar o Irão. Missão impossível neste novo cenário, tanto mais tratando-se de um intermediário incontornável, e não só no Médio Oriente. Mas não desistiram. A China tem ainda um outro trunfo estratégico: as rotas do Oceano Índico (construção de novos portos) e as rotas terrestres do continente asiático, uma irresistível atracção comercial que o ocidente quer sabotar mas que está no horizonte. É um projecto gigantesco de corredores a ligar os continentes (comboios de alta velocidade) através da Ásia Central, de Pequim a Moscovo, com prolongamento para o Irão e a Europa, Roterdão, Antuérpia e Berlim. A nova “rota da seda”?

António Branquinho Pequeno

 

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