Torres Novas – Raquel coleciona colecionadores e conta as suas histórias

em Cultura

O primeiro espetáculo da nova temporada cultural do Teatro Virgínia em Torres Novas é uma proposta de teatro documental da criadora Raquel André, que traz “Colecção de Coleccionadores”, este sábado, às 21h30, numa sessão reservada a 60 espetadores. O jornal O Ribatejo falou com a criadora que nos contou e explicou como foi criar esta proposta que se baseia em histórias de vida de colecionadores. Raquel André criou um espetáculo – que se pode inserir na categoria de teatro – mas que apresenta uma montra de histórias das pessoas que colecionam coisas assim como da relação das pessoas com as suas coleções. E quem são estes pessoas? São residentes nas várias localidades por onde este espetáculo já passou desde o ano passado. Cada espetáculo “acumula” histórias para o próximo. Em Torres Novas, a criadora encontrou-se com quatro colecionadores, pediu que estes lhe contassem as suas histórias, que gravou em vídeo, vídeo esse que será depois exibido no espetáculo. A par dessas histórias, Raquel está em palco e conta as histórias dos colecionadores ao público, que é convidado a sentar-se no palco. Por isso o espetáculo é limitado a 60 pessoas. “Quero criar essa relação mais próxima com os espetadores, quero poder olhar as pessoas nos olhos quando conto as histórias assim como penso que, assim, é mais fácil contar e mostrar os objetos e as histórias”, explica a intérprete.

Nas histórias que foi colecionando o desafio da autora foi que os colecionadores lhe contassem algo particular – e até secreto – sobre as suas coleções e sobre a relação que com elas estabeleceram. “As coleções são uma forma de chegar às suas casas, às suas memórias. Cada encontro é especial, é um universo e também um abismo de possibilidades e de histórias. No Minho conheci uma pessoa que coleciona camélias. Ela coleciona, guarda, fotografa mas são sempre coisas efémeras, assim como eu coleciono histórias que são efémeras”, contou a criadora ao nosso jornal. Na sua “coleção” estão também histórias de colecionadores que colecionam carros de cavalos antigos, colecionadores de artigos relacionados com o universo Star Wars ou ainda outro colecionador que coleciona corações pintados em casas de pessoas desconhecidas. “Ele pinta corações e documenta-os, tal como eu colecionado pessoas. Não me interessa os objetos em si mas toda a memória que ele transporta. Decidi começar esta coleção como resposta à minha inquietação de como se podem guardar os momentos que vivemos com as pessoas”, refere a criadora.

“O teatro também permite que os espetadores se revejam nas histórias que aqui contamos. Tem essa função de espelhamento e de questionamento”, acrescenta. O espetáculo funciona como uma montra para revelar a sua coleção de colecionadores. Este trabalho faz parte do seu projeto de Colecção de Pessoas: Colecção de Amantes, Colecção de Coleccionadores, Colecção de Artistas e Colecção de Espectadores.

O espetáculo nasce depois de um outro, a Coleção de Amantes. Raquel André concorreu com ele à Bolsa Isabel Alves de Costa, que financia criações artísticas na zona entre Porto e o Minho. Levou este mesmo espetáculo a 25 aldeias do norte do Teatro Rivoli. Agora tem levado o espetáculo a locais como Paredes de Coura, Valença, Vila Nova de Cerveira, Monção, Melgaço, Berlim, Kortrijk, Ilha de São Miguel, Tomar e Lisboa. Em Tomar, por exemplo, Raquel André “colecionou” uma colecionadora de coníferas e um senhor que colecionava nomes de pessoas e guardava-os em canções compostas por si.

“Os objetos que são colecionados também contam a história política e económica do seu tempo, contam a história de um lugar, mas eu procuro sobretudo a história mais pessoal dos colecionadores. Quem comprou, quem deu, porque guardou ou escolheu aqueles objetos. Quero descobrir o que falta na história das coleções, aquilo que não vemos, aquilo que as pessoas têm para nos contar”, salienta Raquel André.

No futuro, o seu objetivo é de criar um filme-documentário com as entrevistas gravadas em vídeo. No caso da Coleção de Amantes deu origem a um livro e uma versão de teleteatro para a RTP2.

Raquel André tem raízes familiares em Ferreira do Zêzere. É criadora, performer, atriz, curadora, produtora e colecionadora. Nasceu em Caneças – 1986. Estudou Teatro na Escola Superior de Teatro e Cinema e tirou o Mestrado em Artes da Cena – O Colecionismo nas Artes Performativas. É uma artista APAP – Advancing Performing Arts Project, associada ao Teatro Nacional D.Maria II.

 

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