Atriz nua no Teatro Sá da Bandeira choca vereadora da cultura

em Cultura

O vereador do PS, João Catela, questionou o presidente da Câmara sobre as razões da demissão de Pedro Barreiro do cargo de diretor artístico e programador do Teatro Sá da Bandeira (TSB), que ocupava, em regime de avença, desde janeiro de 2015.
Já na assembleia municipal de final de dezembro os deputados socialistas haviam questionado o presidente Ricardo Gonçalves sobre o mesmo assunto, tendo este alegado a fraca afluência de público que ficou em média a 30% da capacidade do teatro. Mas na origem deste processo contra Pedro Barreiro esteve efectivamente a sua participação na campanha para as eleições autárquicas, em que apoiou Rui Barreiro, seu pai e candidato do PS. As publicações críticas de Pedro Barreiro, no Facebook, à gestão autárquica de Ricardo Gonçalves, que classificou de medíocre, provocaram a ira do presidente da Câmara que, em declarações ao Mirante, anunciou que não iria renovar a avença com Pedro Barreiro.
Já na sessão da Câmara desta segunda-feira, foram outros os motivos alegados pelo presidente e pela vereadora e vice-presidente Inês Barroso, que assumiu nesta reunião pública da Câmara a despesa da decisão da não renovação da avença.
Ricardo Gonçalves disse que “não houve demissão, mas, simplesmente, a não renovação da avença, sublinhando ainda que “a saída teve a ver com a intenção de mudar o rumo da política cultural do espaço que não estava a resultar”.
Em apoio do presidente veio a vereadora Inês Barroso adiantar que estão ainda a analisar os dados, relativamente à afluência de público e aos custos e receitas dos espetáculos do TSB, bem como o número de convites endereçados pela direção do TSB e o de pagantes efetivos de bilhetes. De registar que, com os orçamentos simbólicos do TSB, foram as receitas de bilheteira, apesar de escassas, a forma de os artistas se pagarem.
A vereadora preferiu, no entanto, fazer a média aritmética do número de espetadores que não ultrapassou os 30% da lotação da sala, desde janeiro a novembro de 2017. Um dado que o presidente da Câmara tinha aventado na assembleia municipal de dezembro, quando os deputados da oposição deram conta do mau estar que este caso, com claros contornos políticos, tem gerado.
Já nos argumentos contabilísticos, a vereadora referiu que os 26 espetáculos realizados nestes 11 meses custaram ao município 34 mil euros, uma média de 1.329 euros por ação. Contas de gestor, é certo, mas que não batem bem com o atravancado concurso público para suprir o lugar de diretor técnico do TSB que, segundo a vereadora, “qualquer pessoa podia concorrer”. A vereadora confirmou a demora do concurso, e que “as duas reclamações à apreciação do júri já foram analisadas” e o processo segue os seus trâmites. Inês Barroso disse que está ainda a definir a missão e a programação do TSB para 2018, a ser apresentada oportunamente à Câmara, mas adianta que irá apostar em atividades para as escolas do concelho, e em espetáculos que agradem às massas.
Uma declaração que, já no período reservado a intervenções do público, motivou a intervenção de Silvana Ivaldi, atriz e companheira de Pedro Barreiro, que expressou a sua “satisfação por ver o entusiasmo da vereadora com o sucesso do programa Reino de Natal”, que custou 60 mil euros à Câmara e durou menos de um mês. Mas também a sua “indignação por ver a vereadora reduzir um ano de atividades no Teatro Sá da Bandeira a uma mera operação aritmética”. Deixou ainda uma questão a que nem a vereadora nem o presidente souberam ou quiseram responder – Quanto é que a Câmara investiu no TSB em 2015, 2016 e 2017 e quais as atividades ali realizadas
Na resposta, a vereadora referiu um espetáculo em concreto, a adaptação e encenação do romance O Mandarim, de Eça de Queiroz, por Pedro Barreiro, teve apenas 47 pessoas a assistir à estreia, e deu 70 euros de receita. Por causa desta peça, Inês Barroso disse ter sido “bombardeada a 2 de dezembro, com chamadas de pessoas indignadas porque tínhamos uma atriz nua em palco a dizer asneiras, um comportamento não digno para o teatro municipal e, obviamente, que se os munícipes fazem reportes de desagrado, temos de reapreciar tudo o que foi feito no Teatro Sá da Bandeira”.

A voz do despedido Já Pedro Barreiro revelou-nos que durante os três anos que esteve à frente do Teatro Sá da Bandeira nunca ouviu uma crítica ou sugestões do presidente ou da vereadora sobre a programação ou qualquer espectáculo e, acrescentou: “quando me viam, davam-me sempre os parabéns pelo extraordinário trabalho (sic) que estava a ser desenvolvido no Sá da Bandeira”. Hipocrisia, com certeza, não só pelo “despedimento” de que foi alvo, como pelo fato de o presidente e a vereadora, agora tão críticos, nunca terem posto os pés num dos inúmeros espectáculos que trouxe ao Sá da Bandeira.

BI

Pedro Barreiro, 31 anos, Mestre em Artes Cénicas pela Universidade de São Paulo, onde foi professor convidado, tem desenvolvido desde 2009 diversos trabalhos como encenador, ator, dramaturgista e produtor. Assumiu em janeiro de 2015 o cargo de diretor artístico e programador do Teatro Sá da Bandeira em Santarém, até final de 2017 (de onde sai por controversa decisão política) e onde, dispondo de parcos recursos financeiros, programou e apoiou uma nova geração de artistas portugueses da dança, do teatro, da performance e da música, bem como de alguns novos artistas estrangeiros.
Os orçamentos para programação e divulgação do TSB foram: 12 mil euros em 2015, 24 mil euros em 2016 e 30 mil euros em 2017; valores que, somados, mal chegam para uma grande produção teatral em Lisboa e que, aqui, deram para apresentar perto de 60 espetáculos.

 

Números do TSB: 

5
espetáculos internacionais realizados entre 2015 e 2017 (com artistas de Espanha, Grécia, Alemanha, Itália, Japão e Brasil).
25
estreias de espetáculos de teatro, performance, dança e música em 3 anos.
19
criações locais foram à cena no Teatro Sá da Bandeira entre 2015 e 2017.
6
coproduções de espetáculos nas várias artes.

(Fora destes números ficam as sessões do Cineclube, as iniciativas do FITIJ, Saraus do CCS, Gala CR, Audições do Conservatório de Música de Santarém…).

3 anos de programação do Teatro Sá da Bandeira – Inventário completo 

4 Comments

  1. Li o artigo com interesse e fiquei satisfeito por ver que o(a) jornalista ouviu e registou o que ambas as partes tinham a dizer.

    Quanto à vereadora: “a vereadora referiu um espetáculo em concreto, a adaptação e encenação do romance O Mandarim, de Eça de Queiroz, por Pedro Barreiro, teve apenas 47 pessoas a assistir à estreia, e deu 70 euros de receita. Por causa desta peça, Inês Barroso disse ter sido “bombardeada a 2 de dezembro, com chamadas de pessoas indignadas porque tínhamos uma atriz nua em palco a dizer asneiras, um comportamento não digno para o teatro municipal e, obviamente, que se os munícipes fazem reportes de desagrado, temos de reapreciar tudo o que foi feito no Teatro Sá da Bandeira”
    – referir a magra receita obtida com a peça não faz sentido nenhum no infeliz panorama do teatro português
    – dizer que foi “bombardeada” com telefonemas, na minha opinião, tinha era que ser capaz de defender a programação artística e refletir porque motivos é que não se envolveu mais no trabalho desenvolvido neste teatro

  2. Dizem que o TEATRO e’ CULTURA. Teatro em que aparece no palco uma artista nua a dizer IMPROPERIOS nao e’ CULTURA. So’ se os deuses estiveram LOUCOS. O caso levou a vice – presidente da Camara Municipal de Santarem (CMS) Ines Barroso, com o pelouro da CULTURA, a impor – se, e muito bem. A moral e’ o BAROMETRO da sociedade. Sem ela e’ o CAOS.

    R.B. – FI

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