Uma genial Lisboa em camisa (leia-se: Cronovelemas)

em Opinião

Humor, sátira, vibração sardónica, estúrdia de bairro ou em ambiente de grupelhos, coqueteria de revista, ópera bufa, exibição das mazelas na rua ou no quarteirão, e algo de correlativo, são facetas bem ancoradas na literatura portuguesa. Lembre-se as cantigas de escárnio e maldizer, mais recentemente Marcelino Mesquita, André Brun e Gervásio Lobato e tão próximo de nós Mário Zambujal. Pois bem, Mário de Carvalho é comprovadamente o escritor nosso contemporâneo que revela mais estrelas de general na tragicomédia pequeno-burguesa e na dissecação dos usos e costumes untados em galhofa, estúrdia e personagens desenhadas à la minuta disfarçados de modestos escriturários ou gandulos que sonham o golpe do século. De acordo com a amenidade dos ventos, as coisas correm bem ou resvalam para a desgraça, alguém fica feliz e contente, outro tanto o leitor tem via aberta para se sentir compensado com a arte de bem escrever bem timbrada por peripécias hilares, onde não fica posta de parte a possibilidade da ficção valer menos que a realidade. E assim chegamos ao que importa.

“Cronovelemas” por Mário de Carvalho, Porto Editora, 2017, entrelaça duas obras distintas sob o mesmo signo: “É a sina dos homens serem sistematicamente traídos pelos caprichos da realidade”.

Em “A arte de morrer longe”, somos confrontados com um casal desavindo, divórcio à vista, já numa fase da repartição de tarecos, ele de nome Arnaldo, ela de nome Bárbara, andavam pelos 30 anos. O último item que faltava repartir era uma tartaruga, expressivamente apresentada: “Dentro de um aquário de acrílico, já encardido, de águas empasteladas de nutrientes, oxigenadas vagamente por um velho motor regougante, espapaçava-se, negra e granulosa, a gorda tartaruga de origens pretensamente exóticas e preço condicente”. Não sendo possível uma sentença salomónica, depois de tergiversações e sinuosidades, acertou-se em largar o bicho num lago. Começam as emoções, Arnaldo vai comprar luvas numa gasolineira, presencia um assalto e um fervente tiroteio policial, esquadra, interrogatório, salva a situação o guarda de primeira classe Gervásio das Neves Escarrapacha, o companheiro da mãe de Arnaldo. E na hora de largar a tartaruga no largo do Campo Grande, averba-se novo dissabor, Arnaldo é confundido como um elemento de um gangue da droga, Gervásio volta a salvar o inocente. Entrementes, entram em cena os ambientes de trabalho, a mãe de Arnaldo, Clarinda e Coriolano, há mesmo intrigas de telenovela, galãs de brilhantina, e que artes deu ao escritor para encontrar um final feliz para tanta desdita, para este divórcio ameaçador? Havia obras que receber em Lagoa Moura, casa secundária da mãe de Arnaldo, alguém que ia orçamentar umas obritas, o casal desavindo lá foi passar a noite e tudo está em quando acaba bem: “Mas fazer as camas, coordenar gestos, estender cobertores, aconchegar almofadas, envolver uma comunhão de intenções e um cruzamento de mãos que pediram ainda maior desenvolvimento e maior sincronia, e não tardou que estivessem enlaçados em cima do colchão, passassem a novos patamares de ação e insuspeitadas contorções na cansada cama de ferro, chiava, rangia e gania, não se sabe de protesto se de cumplicidade”.

Agora dois gandulos a aprimorarem “Quando o Diabo reza”, o romance seguinte. Desta feita, Abreu e Bartlo, a viver de expedientes, aspiram a sacar a guita a um velho despassarado. Temos religião, a Igreja dos Irmãos em Cristo, o ilimitado uso de linguagem desbragada, a jovem que irá abrilhantar o golpe chama-se Cíntia, uma rapariga que recebe em casa quando o companheiro trabalha, e há o velhinho, um milionário das drogarias com duas filhas, Beatriz e Ester, uma empregada ucraniana, um mafioso experimentado, o chefe de orquestra do golpe, ti Mandrefo, também conhecido por Manfredo Tendeiro, há o descomunal Mascarenhas, será o chauffeur do Mercedes que levará Abreu e Bartlo mais o velhinho até a uma portentosa caldeirada em Peniche, que porá o golpe às avessas, uns estão em liberdade condicional, outros têm cadastro de longo curso, Manfredo é ágil em diversos negócios, alguns deles assim apresentados: “Os mais fáceis e sossegados eram os negócios do cobre e do alumínio. Sacar o cobre das instalações elétricas tendia a ser muito lucrativo, e saudável, tudo ao ar livre, mas, se não fosse bem calculado, também podia dar uns choques de alto lá com eles e suscitar um espírito de comparticipação da polícia. Recolher tiras de alumínio dos sinais de trânsito acabava por só compensar através dos grandes números, e tornava-se altamente cansativo. Tinha de fazer tudo numa ou duas noites, porque depois começava a ver uma curiosidade irritante por parte de faróis indesejados”.

As duas filhas do velhinho suspiram que o dito parta para as estrelas, o velhinho faz amizades com os gandulos, Cíntia vai vestir uma imitação de Chanel, cor de lilás, Bartlo vestirá uma imitação de Hugo Boss, plano mais que perfeito parecia não existir, os diálogos sucedem-se afogueados, como se disse Mário de Carvalho é lapidar na apresentação de qualquer personagem, são desenhos imperecíveis: “O dito Mascarenhas era um negro enorme com um bojo do tamanho de um Smart. Neto de cabo-verdianos, fazia uma ideia muito difusa de Cabo Verde e nem sabia localizar as ilhas no mapa”.

Os golpistas levam o velhinho por azinhagas e congostas, Bartlo faz tudo para impressionar a putativa vítima do golpe do século. Depois, ala para Peniche. “A bela caldeirada, o bater furibundo do mar espumado, o fervilhar de gaivotas em alvoroço nas arribas do forte”. Momento solene para a caldeirada à Fragateira. E depois a desgraça: “E, no meio de tudo isto, Bartlo, com aquela desenvoltura que até dava para ator de telenovela, já o tinha convencido a sacar dos cheques e a começar a preencher, quando o velho fica, de repente, muito sério, a olhar para ele. Esteve assim uns espaços largos, aquela caneta fincada, lacerando o papel, as mãos a tremer, até que lhe veio um golfão de vómito e derramou a caldeirada, o uísque e o Diabo a sete em cima do cheques e da carteira”. Ponto final, resta só dar este regresso de Mário de Carvalho e esta magnífica tômbola de entes vivos que por nós cirandam, no real quotidiano.

Leitura imperdível.

 

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Ultima de Opinião

A Tecnologia e Santarém

Há uma nova “industrialização” do país em curso, silenciosa. Silenciosa porque não

Editorial – Abril

O Ribatejo dá destaque nesta edição às comemorações dos 44 anos de

19 votos com nome

Apesar da minha relativa juventude, não me considero ingénuo. Todavia, nesta recente
0 0.00
Ir para Topo