Uma admirável obra de crime e mistério: O Crime do Escaravelho

em Opinião

No final da década de 1920, S. S. Van Dine já é um nome consagrado na literatura de crime e mistério, publicara em 1926 O Caso Benson, logo um êxito retumbante, O Crime do Escaravelho vem num período de atividade prolífica, é dado à estampa em 1928. Há três razões essenciais para estes sucessos em cadeia: a personalidade do detetive: é amador, é dotado de uma cultura elevadíssima, revela-se manifestamente pedante e cosmopolita, domina algumas línguas mortas, os seus interesses vão do mundo antigo à sua contemporaneidade; a trama do romance, um hábil encadeado de dias e horas, é referenciado o crime e a partir desse momento o detetive Philo Vance entra em cena, visita o local do crime, interroga, especula, é ele o verdadeiro dínamo que acorrenta o leitor, acompanha-o em estado de absorção absoluta até ao grande final; e o ambiente nova-iorquino que precede e acompanha a grande crise de 1929, uma América de fartura, é um local icónico para fazer dinheiro, para acolher as artes, para daqui irradiar a literatura de massas. Como aconteceu, e a literatura de crime e mistério não foi exceção.

“O Crime do Escaravelho”, por S. S. Van Dine, Porto Editora, 2017, é uma bem-vinda reedição de um livro original. Decorre numa atmosfera em que a egiptologia está sempre presente, um filantropo e velho mecenas apareceu morto na residência de um renomado egiptólogo, com um escaravelho azul ao lado. A obra arranca com uma observação de Philo Vance que tem o seu quê de premonitório: “Os assassinos não costumam deixar cartões-de-visita pregados no peito das vítimas. E, embora seja muito interessante a descoberta do escaravelho azul, tanto do ponto de vista psicológico como do das provas, não devemos ser demasiado otimistas, nem improvisar conclusões. A questão principal neste assassínio pretensamente místico é saber porquê e como o assassino deixou o tal espécime arqueológico ao lado do cadáver. Descoberto o motivo deste ato estranho, penetraremos no segredo do próprio crime”. Esta a filosofia-base do chamado romance-problema: face a um crime, não basta juntar as provas, o concurso da psicologia e de outras ciências humanas e sociais é obrigatório. Vance recebe a visita de egiptologia que colabora com Mindrum Bliss, um dos nomes sagrados das escavações no Egito antigo, vem em sobressalto anunciar-lhe que o filantropo das expedições arqueológicas aparecera morto no museu particular do Dr. Bliss. Vance, o Procurador do Distrito Markham (figura obrigatória nos romances de S. S. Van Dine) e polícias avançam para o local do crime, uma casa em que vive o egiptólogo, a mulher, um assistente, um criado egípcio e outro pessoal da casa. S. S. Van Dine gosta dos pormenores, emerge o leitor na tal atmosfera, a sala egípcia onde ocorreu o assassínio, veja-se a riqueza do pormenor: “No centro da parede-fronteira erguia-se um obelisco de 12 pés, comemorativo da expedição da rainha Hat-shepsut da 18ª dinastia. À direita e à esquerda duas estátuas de gesso moldado: uma da rainha Teti-Shiret, da 17ª dinastia, outra de cor preta, cópia da famosa estátua de Turim, de Ramsés II, considerada a obra-prima da escultura antiga. Abaixo das janelas da frente, com a parte superior e as laterais cobertas de hieróglifos, ficava um sarcófago de granito negro da 22ª dinastia. Cobria-o uma tampa de contornos de múmia, representado a alma do pássaro, ou Ba, com forma de falcão e ca cabeça humana”. Os protagonistas e figurantes entram em cena, enquanto Vance se debruça sobre o cadáver e tece cometários acerca do escaravelho ao lado do cadáver, utilizado num alfinete de gravata. Passo a passo, parecem acumular-se provas de que o Dr. Bliss fora o assassino. O autor gosta de desenhar as personagens, veja-se o Dr. Bliss: “Era uma figura impressionante. Rosto longo e magro, rude e extremamente trigueiro. Fronte alta e estreita; mas o nariz, curvo como o bico de uma águia, era a sua principal caraterística. A boca pequena sobrepunha-se a um queixo que já não era quadrado mas cúbico. Face chupada, dando a impressão nítida de um enfermo que disfarçava as devastações da moléstia pela vitalidade nervosa”.

Sucedem-se os inquéritos, o aparecimento de provas comprometedoras, os agentes da justiça pretendem prender o egiptólogo, Vance dissuade-os. Descobre-se uma história de amor entre a bela mulher do egiptólogo e o assistente, há mais alguém que ama em segredo esta bela mulher. Vance discreteia sobre o amontado de provas que ele vê que apontam numa outra direção, aparecem cartas hieroglíficas, proliferam as armadilhas do criminoso.

A ação tem um ritmo tumultuoso, faz parte da orgânica do romance, não há tempos mortos, mesmo quando se espera o desfecho seguinte, a trama misteriosa está sempre a agarrar o leitor pela gola, há uma segunda tentativa de assassínio, frustrada, e então Vance resolve em pleno museu em que houve um homicídio e a tentativa de outro falar do criminoso, preparam-se um cenário ardiloso em que um supersticioso egípcio será o carrasco do assassino, é uma decisão tomada por Vance, já que seria praticamente inviável a justiça dos tribunais. E nada mais se diz para que o leitor não seja mitigado nesta saborosa leitura de um enredo que parecia fora de moda mas que, afinal, ainda hoje constitui um supremo entusiasmo, a par de outros grandes criadores como Agatha Christie, Ellery Queen ou Georges Simenon. Em suma, a não perder.

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