Zona de Perecíveis – José, Maria e o miúdo

em Opinião

O nome de meu Pai era José. O nome de minha Mãe é Maria. Se vos disser que a minha Mãe é uma santa, podereis pensar que Jesus fala pela minha boca e que a crónica glosa a Sagrada Família, não é? Mas o meu José era bate-chapas, pouco sabia de carpintaria e nem um exército de anjos o convenceria de uma concepção à base de Espírito Santo. Era apenas um homem – e eu, o seu segundo filho, sou esta imperfeita criação, à sua imagem e semelhança (na fisionomia, no olhar malandro, no jeito para jogar à bola e no amor pela vida em geral).
O meu Pai foi, por muitos anos, a figura tutelar dos natais familiares. Ligava quase nada à religião, mas tinha por Deus, pelos santos e pelos rituais do cristianismo um profundíssimo – quase supersticioso – respeito.
Ao contrário do que sucedia com outras datas também importantes, a esta ele nunca faltava e não me lembro sequer de um atraso seu à ceia de 24 de Dezembro. Apreciador da boa comida (bem regada, para minha aflição), ele próprio supervisionava e patrocinava a qualidade do bacalhau, dos legumes e do vinho. Esse lado (não exactamente religioso, antes burguês) compreendia ainda uma ida, com a minha Mãe, à baixa coimbrinha, na própria tarde desse dia, para comprar as prendas dos três (depois, quatro) filhos do casal. E era singular como um homem que passava a vida a resmungar pelas contas – da luz, da água, do gás, da renda de casa, da mercearia – tão mansamente abria os cordões à bolsa para aquela generosidade anual.
Das mais amadas prendas que eu e o meu irmão mais velho recebemos, naquele tempo menino, destaco dois carrinhos telecomandados, que cada um de nós conduzia através de um aparelho ligado a um cabo de, talvez, metro e meio. Tinham só uma velocidade, mas eram enormes, vistosos, andavam para a frente e para trás, e viravam à esquerda e à direita. Entretivemo-nos com eles durante meses, até às avarias terminais (ainda hoje choradas pelos petizes que fomos).
No Natal seguinte, eu e o meu irmão quisemos uma repetição daquela oferta. O nosso Pai ficou pensativo, porque o dinheiro abundara menos nesse ano civil. Mas não deixou de ir com a nossa Mãe à baixa coimbrinha, quem sabe à procura de algum milagre em forma de pechincha.
Na hora de abrirmos os presentes, descobrimos novos carros telecomandados. Contudo, desta feita, eram mais pequenos, mais rudimentares, com o cabo mais curto, e limitavam-se a andar para a frente e para trás, sem a função de virar à esquerda ou à direita. Eu e o meu irmão gememos em coro o nosso descontentamento. E nunca esquecerei a tristeza (talvez a angústia) de meu Pai, interrogando a minha Mãe: “Eu não te dizia?…”
Agora, é outra vez dia de ele nunca mais estar connosco (e de eu nunca mais ser completamente menino). Tenho saudades dele e de nós todos quando ele estava. Saudades, afinal, dessas prendas verdadeiras que tão incompletamente percebi no tempo certo.
Feliz Natal.

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