A queda do Império

em Opinião

A 18 de dezembro de 1961 deu-se o fim trágico do Estado Português da Índia, consumada que foi a invasão pela União Indiana. O governo de Salazar, nesse preciso ano de 1961, assistira já ao início da guerrilha em Angola. Quase 500 anos de história foram por água abaixo, no que à Índia diz respeito. Posto em causa o colonialismo português, iniciava-se uma luta sem tréguas, e o “orgulhosamente sós”, a sigla do homem do Estado Novo, foi uma constante até ao 25 de Abril de 1974. Para nós, então alunos do Liceu de Santarém, a queda da Índia foi apresentada com um chorrilho de mentiras na imprensa. Imprensa que, amarrada a uma censura despótica – a que pugnava pela verdade dos factos – nada pôde descrever quanto à verdade dos acontecimentos. Porém, para a outra imprensa, a nacionalista, travaram-se combates com dureza, o sangue português escorreu pelas ruas de Goa, opondo-se bravamente a nossa gente ao invasor indiano. Claro, tudo não passou de uma conveniente exaltação patriótica, pois as tropas portuguesas tiveram que se render, dada a enorme desproporção de combatentes e de meios. E, quando a verdade veio ao de cima, por já não ser possível esconder-se a derrota, os militares portugueses e o seu comandante-chefe, general Vassalo e Silva, logo foram chamados de traidores. Voltando ao Liceu, sucede que tínhamos mesmo um professor indiano, de apelido Viegas, pessoa de bom trato, que nos tratava familiarmente. Deslocava-se para o Liceu num enorme automóvel americano, um Hudson, se não me atraiçoa a memória, que fazia as nossas delícias pela originalidade, fazendo-se acompanhar dos filhos, estudantes como nós. Um deles, o Domingos, dado o seu bom carácter, rapidamente fez amizade connosco, amizade que ainda hoje prevalece. De tal forma que, há pouco tempo, nos reunimos para matar saudades dos tempos de estudantes finalistas. E lá estava o Domingos, o Domingos Xavier Viegas que, igual a si mesmo no carácter e competência, teve a coragem de “colocar o dedo na ferida” quanto ao Relatório sobre o incêndio de Pedrógão!

Arnaldo Vasques

 

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