Posta restante – Um espectro percorre a cidade

em Opinião

Um espectro percorre a Europa”, destarte começa o Manifesto Comunista (1848), de Marx e Engels, a mais famosa e influente publicação depois da Bíblia, causa directa (o Manifesto) da Grande Revolução de Outubro (1917), cuja se materializou na gloriosa União Soviética, hoje no caixote do lixo da história. Assim iniciava eu esta crónica para celebrar o centenário daquela revolução e concluir que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Foi aí que recebi uma mensagem de Lénine, o grande, que eu julgava morto no mausoléu do Kremlin, a servir de cenário aos jantares dos parolos de lá. Não me admirei, é claro. Tenho recebido mensagens menos dignas de todo o tipo de mortos, a maioria dos quais se julgam vivos. Isto acontece-me desde que participei no Congresso do Physical Institute for Research of Universal Life, das Berlengas, associado à Teoria das Cordas e convergências paralelas. Segue sem cortes (mesmo das partes incómodas para mim), prova escusada da independência deste jornal e omnisciência divina. Ei-la:
«Saudações comunistas, insigne camarada. Tenho assistido daqui a todo o tipo de notícias e reportagens sobre o centenário da grande Revolução de Outubro, parte digna de tais mencheviques ao serviço do capitalismo. Para escapar a isso dirijo-me a ti, ilustre cronista, admirador que sou do teu materialismo dialéctico e agnosticismo realista, e por teres sido nessa corajosa cidade, depois do nefasto 25 de novembro de 75, o guardião da cultura soviética onde avultam as minhas “Cartas de Longe”, primeiro publicadas no jornal Pravda. Falo daquela nobre livraria scalabitana da rua Pedro de Santarém que dirigiste nesses anos heróicos, em especial de uma certa cave nela, ou “subterrâneo da liberdade”, cheia das nossas edições, filósofos e ensaístas, tudo para, a partir dessa capital de Abril, espalharmos por toda a parte o internacionalismo proletário. Espero, com a publicação desta mensagem, escapar à censura dos grandes grupos económicos e atalhar às mentiras deles. Lembro, para começar, a vossa Revolução de Abril comparável nos desígnios à revolta de um certo Jesus da Galileia, que hoje por certo não seria cristão, e noutra escala à nossa Grande Revolução de Outubro. Não esqueço também o desvelo dos comunistas portugueses que, há quarenta anos, publicaram aí a “História da Grande Revolução Socialista de Outubro-edicões Progresso-Moscovo 1977”, que sabes quanto foi bem acolhida por uns que hoje se envergonham de si-mesmo e dos homens valentes dessa cidade, alguns que tu ainda conheceste folheando as minhas obras completas em 45 vols, o que não é dizer pouco. Não esqueço outrossim os militares heróicos da EPC que por lá passavam discretos para ler ou ouvir os poetas militantes a louvar a flor da liberdade. Sim, eu sei o que dizem de mim agora: que fui um déspota que levou ao assassínio de milhares de seres humanos. Disso me penitencio, mas pergunto: a doutrina distorcida do vosso Cristo já matou menos? Terá a vossa Igreja as mãos mais limpas? Sabeis o que eram na Rússia o cinismo e depravação do bando czarista com esse monstruoso Rasputine à frente? Conheceis a ferocidade dos Rómanov e daqueles progromistas que encharcaram a Rússia no sangue de milhões de revolucionários? Ignorais que antes da Revolução de Outubro não existiam no mundo a semana das 40 horas, o subsídio de desemprego, o salário mínimo etc.? O custo foi enorme, sim, mas julgais que o capitalismo os daria de mão-beijada? Meus amigos, com ses e mas a história não se faz. Venderam a União Soviética por calças de ganga e pastilha elástica. O presidente da Rússia é hoje um antigo oficial do KGB. Ele, e o outro, se os deixarem, hão-de acabar com a civilização. E o mundo está melhor? O fosso entre ricos e pobres, a poluição, a ameaça nuclear, a fome e miséria, diminuíram? As classes altas vivem, nessa terra, acima das posses de um país pobre, endividado, sem recursos, e creis que isso vai durar p’ra sempre? O comunismo mataram-no mas os problemas que quis resolver não. Aqui estão as verdades que esqueceram a esses tais, e tu, e essa nobre capital da coragem, recebam saudações deste vosso antigo ídolo, sombra de um sonho, e indígno mestre na utopia marxista, V.I.Lénine».

 

 

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