E a Catalunha aqui tão perto

em Opinião

Depois de tudo o que se tem passado na Catalunha, é uma certeza que já nada ficará como dantes em Espanha. Essa Espanha “una, grande y libre”, que a ditadura franquista proclamava, está a ruir em democracia. Como foi isso possível, aparentemente tão de repente? Embora na política doméstica também a nós não nos faltem pirómanos, tanto em sentido figurado como em termos reais, o caso da Catalunha supera tudo o que possamos imaginar. O aventureirismo e a radicalização política retiraram espaço à possibilidade de diálogo que dizem reclamar. Há demasiados erros neste litigioso processo de divórcio e os protagonistas em confronto não estão visivelmente à altura do abrasivo momento político. O anseio legítimo, afirmado na rua e nas urnas, ainda que não inteiramente regular, não pode ser ignorado. Mas quando o passo é maior que perna, como o foi a decisão de independência da Catalunha, é o desastre que se tem por mais certo. Quando Puigdemont leu a declaração de independência da Catalunha, suspendendo-a no minuto seguinte, pode à primeira vista sugerir uma atitude de razoabilidade política, mas o que este sim-e-não revela é, sobretudo, a fragilidade política da decisão tomada, assim como a fraqueza de quem a determinou. Constatado, de resto, e com algum humor à mistura, pela ministra do Interior, quando vem dizer que Puigdemont “não sabe onde está, não sabe para onde vai e com quem é que quer ir”. A caricatura não anda longe do retrato. Note-se o registo das duas bandeiras em fundo, a da Catalunha e a da União Europeia, de que o chefe do governo catalão se rodeou no acto da declaração da independência. Ora isso é um logro, uma vez que a independência implicaria a imediata da saída da UE, e para a ela regressar terá que fazer uma candidatura garantindo antecipadamente o voto favorável de Espanha, ora isso nesta caminhada de confronto é impossível. Ao contrário, esta ruptura da Catalunha desenrolada à margem da lei constitucional está, aparentemente, a unir toda a Espanha. Partidos políticos e províncias têm manifestado sérias reservas às pretensões catalãs e profunda preocupação com este braço-de-ferro com o governo de Rajoy, conforto que não cauciona contudo o confronto musculado por que optou este governo minoritário. Perante a clivagem criada, provavelmente só resta uma solução à democracia espanhola: a convocação de eleições gerais, em simultâneo com eleições regionais na Catalunha. E assim legitimar pelo voto os protagonistas políticos para o diálogo urgente e necessário. Sendo certo que a Espanha una já foi. Com todos os seus erros, a Catalunha é o sinal evidente de que as nacionalidades estão vivas em Espanha, e ou a Espanha se reconstrói, eventualmente numa caminhada para uma Federação de estados, ou acabará por se fragmentar. A questão é saber o que significará isso para Portugal. Não só politicamente. A economia, mesmo na sua irracionalidade, também fala. A Catalunha, que é o 7º destino das nossas exportações, já está mais pobre: bancos e grandes empresas multinacionais já retiram as suas sedes de Barcelona. O valor das empresas que já transferiram as suas sedes ultrapassa 78 mil milhões de euros (o resgate a Portugal foi de 70 mil milhões). É bem provável que Puigdemont não tenha previsto esta reacção dos agentes económicos. Precisamente o mais recente Nobel da Economia, o investigador Richard H. Thaler, trouxe inovador contributo para o entendimento desta economia comportamental, situada na confluência entre a economia e a psicologia, para salientar a complexidade das motivações humanas em contraponto à suposta racionalidade das decisões. Também a política gasta disso, como se vê.

Joaquim Duarte

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