O Gigante

em Opinião

Ainda haverá quem se recorde do Gigante de Manjacaze? De seu nome próprio Gabriel Mondlane, media 2 metros e 50 centímetros, era o homem mais alto do mundo e figurava no Guinness Book. Nasceu em Moçambique, então Colónia portuguesa, na aldeia de Manjacaze, daí ter-lhe tomado o nome artístico. Alguém, com olho para o negócio, se lembrou de o trazer para o mostrar a um mundo europeu, ávido de exotismos, como Rousseau, o filósofo percursor do Romantismo francês, apresentava-se o mito do “bom selvagem, o homem negro isento de pecados”. Esse empresário levou-o, primeiramente, a fazer parelha com um anão, o Toninho de Arcozelo, que nos seus 75 centímetros era o homem mais curto do mundo. Apresentavam-nos em barracas e circos, nas feiras e praças por essas terras fora e os espetáculos eram um misto de curiosidade e tristeza. Os altifalantes berravam alto, entravam-nos pelos ouvidos, levaram à compra do bilhete e eis-nos lá dentro. Sentado, num canto da barraca de lona, a meia luz, lá estava o gigante, de olhar triste, a face a transmitir uma bondade de Cristo na Cruz. A seu lado um outro ser, tão minúsculo!, o Toninho de Arcozelo, e o show consistia nisso, com as pessoas a darem-lhes apertos de mão, e ponto final. Vi e não gostei, já lá vão muitos anos, guardando de toda aquela cena uma melancolia que não se apagou e me transportou para o Jardim Zoológico. Mas no Zoo eram outros os animais! Também atuou no Coliseu, contudo, o seu momento de glória terá sido “mostrarem-no” à cabeceira da tumba do ditador Salazar, na vigília nos Jerónimos, corria o ano de 1971: era o Estado Novo no estrebucho. Um dia, já Abril despontara, tomava eu a camioneta da carreira de Santarém para Alenquer, vejo entrar o Gigante e sentar-se no banco traseiro, todo para ele, fazendo a viagem inclinado, cabeça encostada ao teto do autocarro. Saiu no Carregado, onde era proprietário de um restaurante. Também ele, já liberto de compromissos circenses, tornara-se empresário, lançando-se no negócio da restauração, ali no Carregado. Entretanto, as coisas terão corrido mal e voltaria de novo a Moçambique, onde morreu em 1990. Fica-nos da estória do Gigante de Manjacaze a fotografia de um país cinzento, do aproveitamento bárbaro da diferença usada para gáudio da populaça. Fenómenos desse tipo eram para entretenimento das massas, como o são hoje reality shows. Todavia, numa sociedade bem mais sofisticada, escapam-se-nos no momento de votar!

Arnaldo Vasques

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