Zona de perecíveis – Cavaco ex-tudo, Cavaco ex-nada

em Opinião

O ressurgimento de Cavaco Silva trouxe-me à memória cenas tragicómicas do anterior regime: Salazar, já destituído da presidência do Conselho, falava com ex-subordinados e dava ordens como se ainda mandasse – e, por secreto medo ou piedade pura, os interlocutores do santacombadense alinhavam na paródia.
A mui comentada sanha cavaquista não surpreende, na verdade, quer no ataque à esquerda, quer no asco pelo seu sucessor à presidência, Marcelo Rebelo de Sousa. Tão-pouco espanta o seu desprezo pelas ideologias. Detenhamo-nos em cada uma das situações.
A forma – atabalhoada – como Cavaco misturou a expressão “revolução socialista” com referências ao governo de António Costa (sem nunca usar nomes, para não fugir ao habitual) decorre da desilusão mortal que é, para si, ver o sucesso económico de um projecto em tudo contrário ao que ele defendia. Previsão: no dia em que a situação piore, dirá com o sorriso dos totobolistas de 2ª Feira à noite: “Eu avisei…”
A crítica – mal velada – a Marcelo é Cavaco em todo o seu funéreo esplendor: aflige-o que um homem culto, descomplexado e com mundo seja tão conspicuamente apreciado pelos portugueses (à esquerda e à direita). Para cúmulo, o Professor Aníbal tem a noção de que os seus dois mandatos são vistos pelos compatriotas como um parênteses tacanho e triste da nossa História recente. Toma essa ingratidão como uma ofensa à sua pessoa e, à falta de melhor argumento, culpa quem, pelo humanismo e pela inteligência da sua intervenção, concita a admiração de ricos, pobres e remediados. Chama-lhe verborreia. Enfim, o homem não perdoa a Marcelo que seja tão melhor presidente do que ele foi.
Na “Universidade de Verão” do PSD (deixo a outros a glosa desta designação ridícula), Cavaco defendeu a inutilidade das ideologias. Para um tecnocrata sem conteúdo (cultural, político, humanista), a retórica bate certo com o que dele já sabíamos. Este foi o homem que se doutorou em Inglaterra, antes do 25 de Abril de 1974, e não se deu conta (segundo se sabe) de que em Portugal existia então uma ditadura; o democrata que não sentiu necessidade de se indignar perante a censura, a Pide, as eleições viciadas, a miséria social; o político que passou a vida a acusar os adversários e os correligionários mais brilhantes de serem “políticos”. A sua aversão tout court a ideologias entronca na sua própria vacuidade de homem sem o sentido da utopia, sem sonhos genesíacos, sem o atrevimento visionário dos grandes estadistas. Hoje, a sua irrelevância justifica mais a piedade do que os vitupérios.
O cronista de Zona de Perecíveis deseja saúde e longa vida ao cidadão Aníbal Cavaco Silva, e lamenta que ninguém o tenha informado ainda do seu falecimento político. Que descanse em paz.

Joaquim Jorge Carvalho

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Ultima de Opinião

Sabores da Beira-Baixa

S abores de uma época, tradições de uma terra”, de Josefina Pissarra,
0 0.00
Ir para Topo