Rosário Breve – Fala o queixinhas armado em Lord

em Opinião

Estou feito um bota-de-elástico de alto-lá-com-charuto-e-pára-o-baile. Verdade. Não sem ingenuidade, resisto às modernices trazidas de revoada por aquilo a que antigamente chamavam futuro mas que afinal não passa de hoje.
Exemplo: a hamburguerização plastificante de tudo e mais alguma coisa. Onde antigamente eu tinha a minha tasca de petiscos portugueses, tenho hoje o estanco de pitéus plásticos cheirando a micro-ondas e a amér(d)icas. Os divorciados, também eles de celofane, andam à trela de criancinhas parvas carregadinhas de phones que podem ser smarts mas não podem ser espertas. Tudo chupa pela palhinha a cola refrigerante. Tudo pasta a rodela de cartão com folha de alface sintética. Tudo me parece uma hipercarneirada de curroshopping. Por assim dizer. Ora, isto chateia-me. Não deveria chatear-me, mas chateia-me.
Em alternativa, isolo-me onde posso. Tenho de usar a cabeça para tal, coisa a que nunca me habituei muito na vida: refiro-me a usar a cabeça. Como faço? Acaba por ser simples: ando muito a pé por zonas ainda não fustigadas pelo invasor. Bairros periféricos desertados de comércio modernaço. Renques de apartamentos crivados de Vende-se. Áleas de jardinetes abandonados onde o grilo estival ainda serrilha o ar da sua música monótona. Traseiras de igrejas fechadas para sempre em cujo interior imagino a solidão estancada dos santos mais improváveis. Coisas, enfim, lindas e mortas.
No bolso esquerdo das calças, vem comigo um telemóvel que raro toca. De alça, o bornal tanto me acarreta o pão para os pássaros como o Enoch Arden de Alfred Lord Tennyson, em exemplar de 1909 que numa tarde finalmente feliz encontrei ao desbarato em um alfarrabista ainda não destruído por qualquer hamburguer(porca)ria das novas. Coisas, enfim, lindas e tristes.
Por outro lado, o sacana do mês de Agosto nunca mais acaba. A seca prolonga-se com ímpios requintes de eternidade. O ar da respiração cresta a boca, tornando-a impraticável para o comércio da bondade da fala. A realidade africanizou-se intoleravelmente. Posso ser muitas vezes visto arfando como um peixe a quem não lavam o aquário desde 1964. Isto não anda fácil. Aproveito o jornal ir de férias para não me queixar tanto: da vida como da morte que se lhe segue.
Mas pronto, calma: bem pior seria andar na droga e ter perdido a seringa. Aquilo do Tennyson é muito boa escrita. Leio-o devagar na paragem dos autocarros que não vêm. Aproveito cada linha como se em cada uma estivesse a receita da felicidade contemporânea, assim tipo modo-de-usar-do-parvo-alegre-armado-em-coiso. Lá bem no-fundo-no-fundo, sou até capaz de ser feliz. Só que ainda ninguém me avisou. Talvez não fosse má ideia ligar, de vez em quando, o telemóvel. E/ou ir eu próprio lavando o aquário, que o verdete do vidro pode parece mal a outros carapaus-de-arribação parecidos comigo. Entretanto, nisto, Enoch decide uma coisa trágica.

Daniel Abrunheiro

 

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