Arquiteto José-Augusto Rodrigues – As ruas da cidade contam uma história com mais de mil anos (vídeos)

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Tudo começou com o desafio lançado pelo jornal e que o arquiteto José-Augusto Rodrigues aceitou: fazer uma série de programas sobre a história do urbanismo da cidade, “com base nas permanências e persistências de 2.000 anos de história que são visíveis ainda no desenho da cidade contemporânea”. O trabalho realizado no âmbito da candidatura de Santarém a património mundial permitiu um conhecimento muito profundo da cidade que está publicado em livro, lembra o arquiteto.
“Passaram séculos, a cidade sofreu várias guerras, pelo menos três grandes terramotos, incêndios, foi conquistada e reconquistada por diferentes civilizações, mas os elementos urbanos, por exemplo como os do período islâmico, persistem, no traçado das ruas e becos da Mouraria, na rua Direita e na Praça Velha onde funcionava o souk, o principal mercado da cidade que ali funcionou ainda até aos anos trinta do século XX; assim como o traçado do acampamento romano de Júlio César está ainda bem patente nas medidas regulares e no desenho geométrico de algumas ruas do bairro do Pereiro”.
É sob este olhar qualificado do arquiteto sobre o urbanismo da cidade que ficamos a conhecer uma cidade que contém várias cidades, que aqui se sedimentaram em diferentes períodos da história de Santarém. Uma cidade desconhecida de muitos, a redescobrir nos quatro documentários já disponíveis no site do jornal. “Decidimos começar com um programa dedicado à Mouraria e outro à Judiaria, pois verificámos que muitas pessoas de Santarém desconheciam terem existido estes ghettos, bairros onde eram segregados os muçulmanos e judeus. Santarém chegou mesmo a ter uma das maiores judiarias do país, de que praticametne nada resta hoje”.
Para José-Augusto Rodrigues, a história mostra-nos que os autarcas e as elites de Santarém não souberam entender a cidade, que acabou por ficar cortada entre a parte alta do planalto e a zona baixa da Ribeira, separação que foi acontecendo com a perda de importância do rio Tejo como principal via de transporte de pessoas e bens, e deste modo se perderam alguns caminhos de ligação ao planalto. “Temos no Alfange um bairro com 2.000 anos, talvez o mais antigo da cidade, que deixou praticamente de existir no século XX; e temos a Ribeira de Santarém que entre 2001 e 2011 perdeu 750 moradores – mas apesar de tudo ainda resiste”.
A grande transformação urbanística da cidade deu-se já no século XX, com a construção dos novos bairros dos Combatentes, Choupal e mais recentemente as urbanizações do Sacapeito e de S. Domingos, enquanto o centro histórico definhava. “A cidade não soube evoluir tecnologicamente, não se adaptou, por exemplo, aos novos meis de transporte”.
O arquiteto considera ter havido um retrocesso nas políticas de apoio aos proprietários dos edifícios no centro histórico. “Há uns anos existiam vários programas de apoio aos proprietários para recuperarem as suas casas; hoje em dia não há nem programas nacionais nem apoios locais e os proprietários queixam-se dos bloqueios da burocracia que os obrigam a pagar projetos de arquitetura para simples pinturas ou pequenas obras de conservação e esperar meses pela aprovação.” Para o arquiteto, cabe à Câmara de Santarém reativar o gabinete de apoio ao centro histórico e reclamar no âmbito da associação nacional de municípios com centro histórico que o IGESPAR delegue na Câmara de Santarém o poder de aprovar essas pequenas obras. Primeiro passo para que o centro histórico possa ser revitalizado. E está nas mão da Câmara fazê-lo.

 

BI

José-Augusto Rodrigues, algarvio, de Lagos, 65 anos, arquitecto, diz que chegou a Santarém por acaso. Terminado um matrimónio, abandonou Lisboa e apanhou o primeiro comboio em Santa Apolónia. Não sabe ainda hoje por que razão decidiu apear-se em Santarém. Cidade que nem sequer conhecia. Aqui se fixou há 32 anos. Primeiro a dar aulas na Ginestal Machaco, ao mesmo tempo que abria um gabinete no centro histórico. Técnico da Câmara, entre 1989 e 2006, foi chefe de divisão do Gabinete de Projectos Municipais, e esteve ligado ao projecto da candidatura de Santarém a Património Mundial. Trabalhou posteriormente em Angola e Timor Leste. Está aposentado, mas
mantem-se activo na arquitectura. E recebe e dá aulas na UTIS.

 

À descoberta do urbanismo de Santarém

À descoberta do urbanismo de Santarém foi o desafio que lançámos ao arquitecto José-Augusto Rodrigues. Vão já quatro documentários gravados em vídeo e disponíveis no site do jornal. Outros se seguirão: a cidade gótica, a cidade do período liberal, a cidade romântica e a cidade contemporânea.

01 Antiga Judiaria de Santarém Episódio 1

Poucos saberão que Santarém albergou uma das maiores judiarias do país. Apesar dos escassos vestígios arqueológicos identificados na malha urbana, sabe-se que os judeus viveram aqui, até à sua expulsão em 1498, num bairro com mais de 400 casas e sinagoga, confinado por um muro edificado no tempo de D Afonso IV. Este o primeiro vídeo.

02 O bairro mouro de Santarém Episódio 2

A Mouraria, como ainda hoje é designado o bairro mais degradado do centro histórico de Santarém, encravado entre a rua Serpa Pinto e o declive virado à Ribeira, foi o local onde se confinaram os mouros depois da conquista de Santarém por D. Afonso Henriques. Murado, com entrada e saída controlada, só o traçado das ruas se mantém.

03 Scallabis, a cidade romana Episódio 3

A cidade de Santarém corresponde à antiga Scallabis Praesidium Iullium, a qual se desenvolveu com a colonização de veteranos de antigas legiões, tendo sido a sede de um dos três Conventus Juridicos da Província Ulterior. As ruas do bairro do Pereiro aparentam corresponder ainda no seu traçado às do primeiro acampamento militar romano.

04 Shantarin, a cidade islâmica Episódio 4

Período islâmico Santarém foi conquistada aos visigodos em 714 por Abdul Aziz, filho do bérbere Muça ibne Noçair que invadiu a Península. Os islâmicos dominaram a urbe durante 433 anos. A cidade islâmica de Shantarin apropriou-se das tradições urbanas pré-existentes, romanas e visigóticas, mas ampliou-a com o seu modelo de urbanismo próprio.

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