Zona de perecíveis – Crónica de estar cansado

em Opinião

Da janela do quarto transmontano onde durmo há cerca de quinze anos, avista-se uma avenida bonita, dita “da Noruega” em homenagem aos nórdicos que, no pós-25 de Abril, ajudaram a custear o Centro de Saúde local. É por aí que me entra o Sol de cada novo dia, e também a vozearia viva dos ribeirapenenses, ou, no Inverno, os gemidos do vento e o choro da chuva.
Há poucos dias, à hora de deitar, chegou-me dessa janela um ruído semelhante ao de dedos batendo no vidro. Curioso, subi a persiana e apanhei um dos maiores sustos da minha vida: do lado de fora, pousada no parapeito exterior, olhando-me seraficamente, estava uma pomba. Não sei porquê, pareceu-me uma pomba velha. Soltei um palavrão cobarde e chamei a minha mulher para que visse o que eu via.
Ficámos ambos, nos segundos devenientes, sob o olhar triste da ave. Depois, eu bati no vidro, para que ela voasse dali pra fora e se concluísse tamanha estranheza nocturna. O animal estremeceu um pouco, mas não voou. Tentei assustá-lo com a descida da persiana. Em vão. Lá acabámos por nos conformar com aquela vizinhança misteriosa. Mas fiquei, por bastantes minutos, de olhos abertos na escuridão, a pensar naquilo – e quando a minha mulher murmurou “Que estranho…”, não pude deixar de sorrir, avaliando o milagre que era estarmos ambos tão preocupados com uma pomba triste. Disse-lhe: “Se calhar, está apenas doente…”.
De manhã, a ave já lá não estava. Não caíra morta na varanda sob a janela, nem na rua. Talvez tivesse continuado a sua saga viajante por outras casas. O parapeito exterior da fenestra ficou pejado de excrementos e de algumas penas.
Ultrapassada a possibilidade (vulgar e bruta) de esta história não significar coisa alguma, interrogo-me: que pode significar esta história verdadeira? Eu gosto de pensar, como diz Antonio Skármeta (pela voz de Pablo Neruda falando com o seu carteiro da Isla Negra), que a linguagem da Natureza é o que a Natureza nos mostra: o mar e as suas marés são a vida e as suas marés; a noite e o dia são a nossa morte e a nossa ressurreição; as estações do ano são as faces do senhor Tempo; um rio correndo é o humano caminho entre o princípio e o fim (ou entre o nada e o tudo). Etc.
Aquela pomba veio dizer-me o quê? (Parênteses: não me apetece aqui a dimensão da galhofa – era fácil associar a pomba ao Espírito Santo do catecismo e a sua tristeza à falência de um banco de más contas.)
E se fosse a Paz que, por uma noite, desistiu de voar? E se fosse o Espírito Santo original que me trazia um abraço (triste) de quem me morreu? E se fosse Deus, até, muito cansado de existir ou de não existir? E se a pomba fosse eu próprio, depois do telejornal, cansado de tudo?

Joaquim Jorge Carvalho

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