Estado de Sítio – “Missões de paz” a Ocidente?

em Opinião

A presença militar portuguesa no Kosovo, parte da antiga Jugoslávia, coincidiu com o início da guerra em 1999 e prolongou-se durante 18 anos. E chegou agora ao seu termo, a 6 de Julho, com o regresso do último contingente. Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se a Coimbra para a cerimónia de recepção e, naturalmente, discursou, na sua qualidade de Comandante Supremo das Forças Armadas. Antes porém, permito-me duas palavras breves de modo a enquadrar alguns aspectos desta guerra, supostamente desencadeada para restabelecer a paz e proteger as populações albanesas, quando afinal o objectivo da NATO foi o de colonizar o Kosovo e sobretudo impor a ocupação e o desmembramento da Jugoslávia e travar, nomeadamente a sua resistência à desregulamentação dos mercados. E assim foi construída no Kosovo, a seguir aos primeiros bombardeamentos, a maior base militar dos Estados Unidos fora de portas. Foi mais uma guerra inventada a Ocidente. Justificadas ficam as astronómicas despesas militares e a conquista nos Balcãs de novas zonas de influência, a estenderam-se para Leste sendo que, seja qual for a opinião que se tenha da Rússia, já nessa altura era intolerável que o gigante asiático não se curvasse às exigências imperiais do Ocidente. Exigências que se mantêm noutros cenários quando ocorreu o golpe de estado na Ucrânia com apoio ocidental desde 2006 (Time Magazine). Com a diferença que os Estados Unidos já não podem praticar o “quero, mando e posso”com a mesma desenvoltura. Para voltar ao tema, será que os militares recém-chegados alguma vez ouviram falar da limpeza étnica de 230.000 Sérvios, Rons muçulmanos, Turcos e outras minorias? E souberam da utilização de armas de fragmentação proibidas pela convenção de Genebra? “É para nós evidente a importância de se manter uma participação significativa em particular nas missões de paz da NATO… operações que têm trazido benefícios inegáveis”, disse em substância Marcelo Rebelo de Sousa. O que é evidente é a vassalagem aos Estados Unidos – em que a grande imprensa participa – não traz benefício para ninguém. O presidente esqueceu que não estava a falar apenas para os seus militares mas para todo o país. Esta visão em política externa não deixará de afectar as questões internas, apesar de todos os beijinhos e abraços que espalha pelo país, a fazer lembrar os tais “não há rapazes maus” de que falava o padre Américo. Referiu ainda o presidente, durante a cerimónia, ser “para nós importante essa participação na NATO”. De passagem, digamos que este uso do plural “nós” é uma instrumentalização da colectividade, para melhor dar cobertura às opções guerreiras. E que importância tem, noutros contextos, o envio de 160 militares portugueses para a República Centro-Africana, invadida pelos Franceses em 2013, “Um país que sofre e que nos chama”, como dizia Hollande. Uma invasão, não por razões humanitárias, pela paz e pela segurança, como ele apregoava, mas pelas reservas de oiro, diamantes e urânio do seu subsolo, sendo que a França é a 5ª potência nuclear do mundo. Há que repor a História no seu lugar. Ao altar da pilhagem dos recursos naturais e da geoestratégia, quase tudo se sacrifica. Até grupos terroristas passam a ser simples “rebeldes”. Portugal tem escapado aos atentados e seria bom que isso assim continuasse, mas o seu envolvimento militar não deixa de contribuir para incendiar ainda mais a planície, coisa que os militares franceses fizeram em larga escala: não só pela gritante exclusão social nas periferias urbanas dos jovens de origem muçulmana, mas também por virtude das opções militares que continuam a varrer o Mali, a Costa do Marfim, a República Centro-Africana, etc. O reverso da medalha deste envolvimento foi a aceleração do extremismo religioso.
A pilhagem neocolonial é desastrosa, no Kosovo como em qualquer outra paragem. Nestas circunstâncias, mesmo que o Daesh não tenha futuro, apesar da sua extrema mobilidade e abrangência, do fanatismo do seu combate e da capacidade exponencial de recrutamento de novos fiéis, como será ele vencido? E qual é hoje o futuro do Ocidente?

António Branquinho Pequeno

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