Da Cidade Esquecida – A Oeste nada de novo

em Opinião

Foi enternecedor observar as pias manifestações locais de evocação, reflexão, comunhão e cantochão, ao embuste sacro-fenomenológico (termo obscuro como convém aos altos estudos desta matéria), por detrás do centenário das ditas aparições, homologadas urbi et orbi por parte do cabido de jesuítas dessa cidade esquecida, que é Santarém. Fátima triunfou onde haviam falhado Asseiceira, Ortiga, Chão das Maias, Rio Maior, e mais um rol de terras ao redor do “altar do mundo”. O que se julgava impossível há cem anos, e hoje, foi o coro de loas nesta cidade de Santa Iria que, por inveja a Tomar, se reclama de S. José, erguido à Senhora de Fátima que forçada a aparecer lá acabou com a peregrinação vizinha à Senhora da Nazaré, e aqui, quase, com a mais antiga romagem ao Santíssimo Milagre de Santarém. Pois agora, nesta outra romagem laudatória do centenário, nem faltou ao coro a santarena corporação da hóstia profanada, e bastante combalida, depois que Fátima açambarcou tudo com a energia de um buraco-negro. Mais papistas que o papa é dizer pouco. Nem o homem-das-botas que não sabem quem foi lhes mereceu respeito. Não que a romaria espantasse quem conhece a inflexão beata que, desde Inácio de Loyola, se apoderou desta outrora solar, poética, moderna (Gil Vicente, Camões, Garcia de Resende, Frei Luís de Sousa, Garrett, Padre Nuno, foram modernos),de Santarém a quem os setecentistas chamaram um “livro de pedra”, e que a pouco e pouco se transformou numa oração petrificada. João Pedro do Monte, que também não sabem quem foi, já em poema herói-cómico (1763), alertara para a mineralização das sinapses do inconsciente colectivo do tal livro petrificado. E Garrett depois dele. Nenhum tem cá estátua. As mulheres e homens republicanos que, há cem anos, protestaram aí contra a petrificação da igreja católica, a qual nessa altura se serviu da cidade de Abidis contra o Estado Laico, sabiam que nenhum lugar neste planeta é mais sagrado que outro. Mas a mineralização continua (Tu es Petrus),e muito terá que desbastar na pedra o actual papa que não é tão parvo como o julgam. Admirável ainda, em tanto beatismo assolapado, é agora a campanha contra as beatas, de cigarro, que enchem o chão dessa cidade esquecida de as varrer com vassouras, ao modo tradicional. Freud explicará isto. E todavia nenhum milagre hoje se compara àqueles revelados pelas fotos do Hubble. Nem nunca qualquer profeta, messias, arcanjo etc. anunciou que o sol se irá transformar numa gigante-vermelha. Aliás a ciência actual sabe mais sobre as origens da vida, universo e matéria, que todas as religiões juntas. Continuem que a variedade é útil, e a fé no absurdo legítima (quod absurdum credo, como dizia o tipo de Hipona).Porém insisto, milagre por milagre antes aquele da humilde judia que em Santarém, ao transportar a hóstia sangrenta de S. Estevão, talvez a pretendesse levar para remédio de algum moribundo, andasse menstruada, ou, quem sabe, se quisesse converter com ela. Era bonito que assim fosse, ou passasse a ser, abolindo o ódio anti-judaico que a impregna, e compromete, quase tanto como o louvaminheiro coro local à senhora da azinheira, e seus acólitos, por parte de algum apagado beatério, sem fumo de modernidade religiosa, nessa outrora ajuizada, aberta, e solar, cidade esquecida.

 

Mário Rui Silvestre

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