Estado de Sítio – Atentados terroristas e guerra de alianças

em Opinião

Os atentados terroristas multiplicam-se e a Europa tem sido particularmente abalada. Quais as suas causas, externas e internas? O “Joint Intelligence Commitee” (Comité Conjunto de troca de Informações), já de há muito advertira que a “ameaça mundial de grupos terroristas aumentaria significativamente desde o início de quaisquer acções militares contra o Iraque”. Vale o que vale. Importa porém questionar, por um lado, as guerras de agressão no Médio Oriente, de recolonização e geoestratégicas que vêm de longe. Por outro lado, internamente, questionar também a marginalidade a que foram empurrados largos sectores de jovens dos bairros periféricos populares, em França, na Bélgica. E não só. O atentado de Manchester, numa sala de concertos, em Maio passado, obriga também a reflexão na medida em que Salman Abedi, de 22 anos, nascido no Reino Unido e filho de refugiados líbios, não agiu isolado, fazia parte do grupo LIFG (Grupo Islâmico Combatente da Líbia) utilizado pelos serviços secretos durante 20 anos, apesar de catalogado como organização terrorista inspirada pela Al Qaeda. Chamavam a esse grupo “os rapazes de Manchester”, grupo que chegou a estar implicado em tentativas de assassinato do líder líbio. Seria por isso que se deslocavam relativamente à vontade por toda a Europa, ao tempo de Theresa May, à altura ministra de Cameron? Desconhecia ela o alerta dado pelo FBI norte-americano quanto à presença de Salman Abedi no Reino Unido? Efectivamente Kadhafi tornara-se inimigo figadal que era necessário derrubar e não só por causa do petróleo. Ele tinha um plano para abandonar o petrodólar em proveito de uma divisa apoiada no ouro. Por outro lado, estava prevista a criação de um banco africano de união dos países pobres. A Líbia foi finalmente atacada em 2011 com cobertura da ONU, por “razões humanitárias”. O resultado foi o fortalecimento do Estado islâmico na África do Norte, deslocando-se os “rebeldes” para Sul com armas e bagagens na direcção do Mali, com as consequências devastadoras que se seguiram. Há pois que interrogar as alianças ocidentais ambíguas, de cumplicidades com organizações terroristas. De uma delas, a Al-Nosra, dizia o ministro francês Laurent Fabius, ao tempo de Hollande: “Fazem um bom trabalho na Síria”. Como explicar que um terrorismo monstruoso possa ser um aliado? De frisar também que neste momento, num outro contexto de alianças, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Egipto, etc., romperam com o Qatar. Não é de espantar. Está a instalar-se uma aliança entre Israelitas e Sauditas “contra o terrorismo”, uma espécie de NATO árabe implementada pela Arábia Saudita e controlada pelos Estados Unidos e Israel. O Qatar não foi penalizado por ser conivente com grupos terroristas, coisa que outros países do Golfo praticam, mas sim, tudo indica, pelas suas relações com o Irão, o Hezbollah e o Hamas. Por outras palavras, seria mais interessante isolar a Rússia que combater o terrorismo! Claro, grande é responsabilidade dos media pelos seus silêncios, inclusive o de não dar voz às vítimas civis da guerra. Das centenas de repórteres militarmente “embarcados” não há que esperar qualquer alerta. É porém inimaginável a brutalidade ocidental, as populações aterrorizadas antes pela dupla Blair-Bush (“Choque e Pavor”). Centenas de milhares de civis evacuados, deslocados, refugiados. Em Faluja, no Iraque, 70% das casas foram nessa altura destruídas. Cerca de 1,7 milhões de civis iraquianos mortos, cerca de metade crianças e jovens, sem falar em outras consequências das sanções impostas. Uma “cultura” ocidental da impunidade em larga escala. E da hipocrisia, porque feita em nome dos direitos humanos e da democracia.

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