Blogue de Notas – Escrever a partir do vazio?

em Opinião

Nem Homero nem Virgílio leram Shakespeare ou Cervantes e nem por isso foram piores escritores. É o título de uma entrevista ao escritor espanhol Andrés Trapiés, a propósito da Feira do Livro de Madrid. O título coloca questões decisivas e, como tal nunca resolvidas. Herdamos ou autogeramo-nos? Somos produto do meio ou nascemos dotados dos meios de inventar a nossa vida? Não existe o absoluto nas respostas. Somos produto do meio, herdamos, mas também somos dotados de capacidade para estabelecer novas conjugações com os elementos disponíveis. Nas artes, e na literatura em particular, é relativamente comum encontrar quem se julgue descobridor da pólvora e até que se atribua a genialidade criadora a partir do vazio. Não se sabe se Shakespeare ou Cervantes leram Homero, ou Virgílio, mas leram antes de escreverem. Leram histórias, leram biografias, leram decretos reais, leram ou ouviram sermões de padres e bispos, leram ou escutaram sentenças de juízes, relatos de batalhas. E, mais importante, conjugaram o que leram com o que viveram. Foi o resultado dessa conjugação que os tornou criadores geniais, interpretando os mesmos faustos que Homero e Virgílio: a viagem do homem, as suas aventuras, as lutas contra os poderes da Terra e dos deuses.
Shakesperare e Cervantes leram as constantes do mundo, o poder, o mal e o bem, a perfídia, a mesquinhez, a generosidade, a ambição, a traição e a lealdade e construíram um fresco da humanidade. Obras perenes.
O que o título do artigo da entrevista de Andrés Trapiés enuncia é uma crítica àqueles escritores que não leram nem Homero, nem Virgílio, nem Shakespeare, nem Cervantes, nem qualquer escritor que tenha lutado com as forças do mundo. Os que, além da ignorância dos livros, adicionam a ignorância da vida, os que não viveram. E que, além de não terem lido, nem vivido, julgam poder dizer outra coisa a não ecoar a vulgaridade do seu vazio, convencidos que têm voz.
Carlos Matos Gomes

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