Nos anos de chumbo, a chegada do turbilhão anticolonial

em Opinião

Numa leitura convencional, a década de 1950, aparece na nossa historiografia marcada pelo impulso desenvolvimentista em Portugal. A imprensa, a rádio e televisão davam notícias risonhas, a estabilidade não faltava: construíam-se barragens, importantes equipamentos sociais, encetara-se a euforia da industrialização; o resto era ocultado, não se dava conta de que o regime do Estado Novo enfrentava, a ritmo crescente, a contestação ao colonialismo. Em “Crepúsculo do Colonialismo, A Diplomacia do Estado Novo (1949-1961)”, por Bernardo Futscher Pereira, Publicações Dom Quixote, 2017, passamos a dispor de um vivíssimo relato histórico da diplomacia do regime de Salazar em tempos de Guerra Fria, onde emergiram aspirações dos povos oprimidos à independência.

À partida, o regime possuía uma imagem simpática por fazer parte da Aliança Atlântica, campeava o anticomunismo. Mas ninguém desconhecia que o primeiro tremor de terra se anunciara com a União Indiana, Goa, Damão e Diu eram porções reclamadas pelo novo Estado. O regime julgava também que a adesão de Portugal às Nações Unidas, traria um respaldo para eventuais pretensões na Ásia e em África. É evidente que também não se ignorava que o novo regime comunista em Pequim não facilitaria as coisas, havia igualmente que agir com delicadeza com a Indonésia. Bernardo Futscher Pereira dá-nos o magnífico relato de toda esta trama diplomática, é uma obra-prima de comunicação, agarra do princípio ao fim iniciados e não iniciados. O regime de Salazar socorreu-se de retórica hábil para procurar fazer esquecer que a presença portuguesa no chamado Estado da Índia, Macau e Timor era ténue, e os Estados à volta poderosos, as soluções militares para resistir eram impensáveis. Futscher Pereira socorre-se lapidarmente de texto para ir relevando o desenrolar dos acontecimentos. Logo um estrato de Barradas de Oliveira num relatório confidencial a Salazar: “ (…) o nosso contacto com Timor deu-nos a impressão de uma ilha onde os portugueses tivessem acabado de desembarcar, sem tempo ainda para promover o progresso da terra e a cristianização as almas”. Os acontecimentos sucedem-se a ritmo alucinante na China, a partir de Outubro de 1949, está instalado o comunismo, foram inúmeras as exigências chinesas, houve que ceder até se constituir o modelo que a República Popular aceitou, com regras que definiu, Macau e Hong Kong. Estas pressões são totalmente omitidas à opinião pública, o que se mostra é a pompa com que se recebe o generalíssimo Franco, entretanto trasveste-se o império colonial em províncias ultramarinas. Mas o fenómeno anticolonial vai-se aprofundando, a União Indiana captura Dadrá e Nagar-Aveli, em Bandung reúnem-se líderes que mais tarde constituirão o movimento dos não-alinhados, a expulsão das potências coloniais está na ordem do dia.

Futscher Pereira tem dotes ímpares para animar os acontecimentos e na segunda parte da sua obra, que titula por Choque com o Terceiro Mundo, é particularmente feliz quando põe em marcha as peças do puzzle que passam pelas Nações Unidas a fazer perguntas com base no artigo 73, temos sempre a sensação de que o país vive num cenário glorioso, caso da visita de Isabel II em 1957, segue-se o torvelinho da candidatura Delgado que, para além de ter obrigado do regime a uma escabrosa manigância eleitoral, deixa Salazar definitivamente amargado ao reconhecer que o regime que instituiu está larvado de descontentamento.

A África resvala para a independência, as grandes potências cedem á inevitabilidade, o general de Gaulle desabafa com o diplomata Alain Peyrefitte: “Acha que eu não sei que a descolonização é desastrosa para África? Que a maior parte dos africanos está longe de ter alcançado a nossa Idade Média europeia? Que vão outra vez conhecer as guerras tribais, a bruxaria, a antropofagia? Que 15 ou 20 anos a mais de tutela nos teriam permitido modernizar a sua agricultura, dotá-los de infraestruturas, erradicar completamente a lepra, a doença do sono, etc? Os americanos e os russos acham que têm vocação para libertar os povos oprimidos e encorajam-nos a exigir cada vez mais. O que devia ter sido escalonado ao longo de 50 anos consumou em dois ou três meses. Mas não nos podíamos opor”. A independência da Guiné Conacri é o primeiro sinal de alarme, houve mesmo quem pensasse que era dali que partiria o primeiro surto de guerrilha. A crise do Congo faz perder as ilusões, anda-se devagar, retardam-se decisões. Só que 1961é um furação do princípio ao fim, ainda por cima a eleição de Kennedy iria contribuir para alterar a correlação de forças a favor dos nacionalistas africanos. Portugal passa a ser condenado nas Nações Unidas e no início de 1961 Angola torna-se um barril de pólvora, um antigo aficionado de Salazar, Henrique Galvão, sequestra o navio Santa Maria em alto mar, há paragonas na imprensa de todo o mundo. Salazar reage, procura-se rodear de gente dinâmica como Adriano Moreira, Correia de Oliveira e Franco Nogueira, suspira-se temporariamente de alívio com a reconquista de Nambuangongo. Só que o ano termina para o regime da pior maneira: o Estado da Índia desaparece em poucas horas. O autor questiona sobre a rigidez e a intransigência do regime. Passara a ser doutrina que não merecia discussão: sem África, Portugal não tinha razão para existir, este argumento era obviamente o biombo para outro, como o autor observa: “O que estava em causa em África não era a sobrevivência do país, era a sobrevivência do regime. Salazar era o Estado Novo, e o Estado Novo era Portugal. A identificação era tão sólida, dogmática e duradoura que não havia margem de flexibilidade e evolução. O rumo estava traçado há muito e era impossível alterá-lo. Zelosos dos seus privilégios, os guardiões do templo da nacionalidade, reunidos em volta de Salazar, não consideravam possível mudar nada sem que tudo desabasse”.

A leitura é imperdível e ficamos à espera do relato correspondente à história diplomática correspondente aos últimos combates.

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