Editorial – Um museu por Abril

em Opinião

Importa referir que a ideia de um museu ao 25 de Abril em Santarém vem de longe. De há pelo menos trinta anos. Ainda Ladislau Botas presidia à Câmara e Salgueiro Maia respirava saúde, quando, pela primeira vez, se aflorou o assunto. Contudo, fosse por falta de visão cultural ou frouxa convicção de quem tinha o poder de decidir, a ideia morreu ali, praticamente à nascença. E como é de bom tom e a cortesia o exige, até mesmo para justificar a inércia, lá se apresentou um motivo: considerou o presidente da Câmara que não havia na cidade um espaço digno e disponível para instalar o museu e que a hipótese alternativa de construir um edifício de raiz era demasiado cara para as disponibilidades do município.
Não fora Salgueiro Maia, e tínhamos um nado-morto. Mas como era seu timbre, não ficou parado. A ideia foi ganhando expressão, até a materializar no que viria a ser o Museu de Cavalaria, instalado na EPC. E na história militar que este museu se propunha contar, desde a cultura castreja até aos nossos dias, lá estava também a do 25 de Abril. Sendo um cicerone de excelência, Salgueiro Maia tinha-se entretanto licenciado em sociologia e em antropologia, era na visita das escolas e no entusiasmo com que acolhia e falava aos jovens alunos, que melhor se percebia a sua dedicação àquele improvisado espaço museográfico, que infelizmente já não existe. Durou pouco. A sua morte precoce foi o caminho para a erosão deste museu da cavalaria. Perdeu-se o museu, como anos depois se perdeu a própria EPC. Edifícios militares e parada histórica ficaram de repente devolutos, após a deslocação dos militares da EPC para Abrantes. Decisão inesperada, que a cidade viu acontecer quase sem um estremecimento, um queixume brando que fosse do município ao governo ou às autoridades militares de então. Nada. Moita Flores, que já então presidia à Câmara, tratou de abocar todo o património da EPC para o município, prometendo instalar ali uma Fundação da Liberdade, promessa que nunca passou da encenação política. Como ensaiou também a tentativa, felizmente vã, de rebaptizar a EPC como “Escola Prática do Conhecimento”. Neste entretanto, o assunto do Museu voltou à superfície. Moita queria-o agora baptizado com o nome de Museu da Liberdade, para condizer com a marca que nos deixou de “Capital da Liberdade”. Porém, mais uma vez a ideia ficou no tinteiro. Sobrou, do fátuo intento de Moita Flores, um esquisso assinado por um arquitecto, Antunes Vieira, esquecido numa gaveta, como outros projectos igualmente sonhados, qual sina desta cidade sempre adiada. Até que, há uns meses, o actual presidente Ricardo Gonçalves relança a ideia do Museu e desafia o coronel Correia Bernardo a presidir à comissão instaladora. É neste ponto que estamos. O consenso é hoje total e está bem reflectido na constituição da comissão. Daí também os passos consistentes já entretanto dados: está definido o conceito do que será Museu; a sua designação, MAVU – Museu de Abril e dos Valores Universais; e a sua localização, em edifício a construir de raiz entre as duas paradas da EPC, com o arquitecto Siza Vieira já convidado para desenhar o projecto.
É verdade que estamos em ano de eleições autárquicas. Mas é também uma evidência que nunca a ideia do Museu de Abril esteve tão avançada como agora. Santarém é, talvez, entre todas as cidades portuguesas, aquela que tem o maior dever de guardiã da memória de Abril – e assumido esse desígnio, deve saber também colher benefícios futuros. Não podemos é mais continuar a arrastar os pés.

Joaquim Duarte

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