Zona de Perecíveis – Breviário da gratidão

em Opinião

Em 1979, eu tinha 16 anos e cursava o 11.º ano na prestigiada Escola Secundária José Falcão, em Coimbra. Antes de ali chegar, estudara até ao 9.º ano na Escola Rainha Santa Isabel, ali à Pedrulha, na periferia da cidade. Como eu, os meus colegas eram filhos de agricultores, operários, humildes empregados de comércio. Por ter sido, até à data, tão bom aluno, calhou-me depois, na nova-vetusta-chique Escola, ficar na turma A do 10.º ano, eleito para uma espécie de (oficiosa) selecção que, em muitos estabelecimentos de ensino, era frequente fazer-se.
Estranhei quase tudo: os modos afectados das meninas, a distância dos professores, as roupas de marca, o indisfarçado desprezo a que me votavam os rapazes (filhos, em geral, de gente importante e abastada). Salvou-me da absoluta infelicidade uma razoável notoriedade conquistada à custa dos resultados escolares e do futebol (eu era um razoável craque juvenil do União de Coimbra).
Quando surgiu a possibilidade de uma viagem de finalistas ao Algarve, com estadia de uma semana, não me entusiasmei. Para além do desamor pela Escola, havia o pormenor maior dos treinos e dos jogos que eu perderia. Mas um colega da Académica convenceu-me, lembrando-me que poderíamos treinar “lá”. De modo que falei com o treinador, o mister Pinho, e ele – embora criticando a oportunidade do evento – autorizou-me a inscrição. Acrescentou até que um aluno assim, “exemplar”, merecia bem este prémio.
Faltava só falar com a minha família – e pagar. Não tenho exactamente presente o preço, mas deveria andar pelos três contos (hoje, quinze euros). Ora, foi esta circunstância a pôr ali um travão cínico ao sonho de momento. Percebi que aquela importância era, para o meu pobre agregado, excessiva. O meu Pai, contudo, optou por dizer apenas que era muito dinheiro, que se ia ver, que não tivesse muitas ilusões.
Ao longo das duas semanas seguintes, fui-lhe perguntando se sempre iria ou não, porque (repetia) a directora de turma queria ter a lista completa de inscritos. O meu Pai tartamudeava, insistia que era quase impossível, que esperasse. O pior para si, creio, foi eu entretanto ter marcado um grande golo no campo da Arregaça e dar-lhe a assinar, em certa manhã, o teste de Português com um maravilhoso “Muito Bom” chapado no cabeçalho.
Veio, nesta narrativa neo-realista, o fim-de-semana anterior à 3ª Feira final, data-limite para entregar o dinheiro da inscrição, ou – como ia sendo tão provável – declarar a minha desistência (alegadamente por “razões familiares”). O meu Pai foi comigo, nesse Sábado, à sala de bingo do União de Coimbra. Aí pelas onze horas da noite, gritou “Bingo!” tão alto que toda a gente à volta se assustou. O prémio foi, talvez, de uns seis contos (trinta euros). Vi-o fazer mentalmente contas à vida (gasolina, refeições, água ou luz), guardar um conto e quinhentos para si, e enfim entregar-me um grosso maço de notas. “Toma”, disse, “paga a viagem e guarda o resto para gastares lá.”
Agradeci-lho num murmúrio. Apetecia-me até abraçá-lo, mas não tínhamos suficiente à-vontade para tamanha expansão. À hora em que parti para o Algarve, ele não estava. Deixei-lhe um papel sobre a mesinha-de-cabeceira dizendo-lhe que nunca me esqueceria daquela oferta. Contra a morte, ainda hoje lhe agradeço. Na maioria das vezes, por escrito.

Joaquim Jorge Carvalho

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