Espuma dos dias – Focado no foco

em Opinião

De forma rápida e abrangente, a generalidade das pessoas principiou a empregar os termos focado e fogo a propósito de tudo – inclusive da fuga de capitais – e de nada, até do adepto frustrado e lamuriento que na ânsia de consolo passa a tifoso do Barcelona, a contínua derrota é contrabalançada através das vitórias colhidas lá fora.
O deputado trapalhão, perito no atropelar as opiniões contrárias, afoga-se nas contradições dizendo-se unicamente focado no deslindar o imbróglio de Polichinelo rotulado – Caixa. A deputada palavrosa diz ter o foco apontado em direcção ao governador do Banco de Portugal, o qual responde desfocado numa exibição prenha de mansa manha. O Parlamento, durante o último debate Costa/Passos, virou balbúrdia debaixo do olhar incrédulo dos cidadãos. Nem na Praça da Figueira, na época áurea das regateiras.
No universo futebolístico o uso e o abuso dos termos enunciadores desta crónica não podem constituir surpresa, o árbitro de Viseu ao explicar à SIC o modo como recebeu pauladas, após ter apitado um jogo, levou-o a dizer que o foco do agressor foi agredi-lo na cabeça e ela, por seu turno focou-se no suster o pau furioso.
Já na esfera dos ostensivos proprietários de títulos académicos de nomeada as redutoras focagens produzem irritação ao mais circunspecto dos telespectadores, o professor Caramelo focou-se no receio de o seu apelido gerar piadas levando-o a cancelar aquela palestra onde Jaime Nogueira Pinto abordaria o tema do populismo na Europa.
Não navego nas águas do historiador e arguto politólogo, no entanto, a coragem de enfrentar situações complicadas nunca o abandonou, antes e depois de 1974, por cá, e em África. Bem andou a Associação 25 de Abril, ao contrário dos nefelibatas titubeantes da Universidade paga por todos nós, ao oferecer a suas instalações para o debate se realizar. Assim sim, o cerne do problema recebeu o tratamento severo e coerente com os princípios matriciais da Revolução dos cravos deixando o opróbrio da má decisão dentro dos muros de uma Instituição cuja marca maior tem de ser a plena expressão do pensamento. Os professores Caramelo & Sendas podem lavar as mãos em mil águas, a nódoa nunca desaparecerá.
Os analistas e comentadores dizem-se concentrados na focagem do caso Sócrates, os advogados dele registam a intensidade de pormenores processuais lançando os holofotes sobre o Ministério Público, manda a prudência não tecer considerações inflamadas consoante as luzes da cegueira de cada um.

Armando Fernandes

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