“Conciliar o mundo” e tirar o sono à assistência – palestra de Adriano Moreira

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Foi uma palestra memorável a que o Prof. Adriano Moreira veio proferir, na passada sexta-feira, no auditório da Escola Superior Agrária de Santarém. Desde logo pela vivacidade intelectual que, aos 94 anos, o estadista e académico mostrou, ao captar a atenção da assistência nas quase duas horas da palestra sobre política internacional, com direito a questões no final.
“Sou sócio honorário da Ordem dos Engenheiros”, avisou Adriano Moreira logo à chegada, para acrescentar, com fina ironia, que aceitou o título “com a promessa de que nunca assinaria um projecto de engenharia”. Estava dado o mote, e o agradecimento, ao convite da delegação distrital de Santarém da Ordem dos Engenheiros, presidida por Rui Barreiro, para esta conferência, onde teve também a companhia do presidente do instituto Politécnico de Santarém, Jorge Justino, ao seu lado na mesa.
“Conciliar o Mundo”, o título do colóquio do Professor Adriano Moreira, já era desafio para tirar o sono a qualquer um. História, religiões, terrorismo, política internacional… tudo se cruzou em várias voltas ao mundo para nos demonstrar como chegamos a este globo ameaçado pela ordem violada e pela desordem crescente:
“Estamos longe de Nelson Mandela quando ao receber o Prémio Nobel da Paz (1993) disse falar em nome dos seres humanos incontáveis que, tanto dentro como fora do nosso país (África do Sul), tiveram a nobreza de espírito de se atravessar no caminho da tirania e da injustiça, sem ambicionarem qualquer proveito próprio”. Palavras que caíram fundo na assistência, e continuou:
“Mas a resistência, antes de mais um estado de espírito, parece ganhar o primado na análise da conjuntura complexa de fatores sociais, culturais, políticos, económicos, religiosos, de conhecimento ou de desconhecimento dos outros. (…) Uma nova rebelião dos devedores, agora em termos transnacionais, legitimada e sustentada pela multidão atingida pelos efeitos de políticas em que não participou, e só conheceu pelos efeitos, pode aprofundar uma nova temática da polemologia, de perspetiva universal e fora dos quadros legais existentes, mas ultrapassados pelos factos dolorosos que lhe não reconhecem ainda a legitimidade. Daqui a crescente importância e urgência da temática que se traduz em, reformular os métodos de conciliar o mundo.”
“Quando o mundo se encontra em mudança acelerada, o confronto com essa circunstância, de modo a acompanha-la, salvaguardando e fortalecendo o interesse e a dignidade da comunidade nacional, exige seguramente uma diplomacia reformulada e fortalecida, apoiada em objetivos governamentais claros, e sobretudo inspirados não pelas ambições pessoais que nada interessam, nem pelos interesses partidários que perdem importância, mas sim pelo interesse permanente do Estado, de conteúdo variável em resposta à variação das épocas, mas sempre interesse permanente.”
“Para a situação portuguesa, aquilo que, por exemplo, Boris Biancheri chamou a necessidade de conciliar o mundo, tem, entre outras exigências, a de conciliar a Europa rica com a Europa pobre, fortalecendo a confiabilidade do projeto europeu, quer para cumprir obrigações assumidas, quer para recuperar das crises, quer para contribuir com a imaginação criadora para a reorganização da governança mundial em paz. As divergências que ameaçam o processo europeu apenas tornam mais imperativo o esforço diplomático.”
“Não foi acertada, julgamos, a ideia de Fukuyama do fim da história, (…) mas o facto mundial é que desapareceu a hierarquia das potências que o Conselho de Segurança da ONU acolheu, que a Carta e os Tratados são atingidos pela crise mundial, e que não é difícil aceitar que é urgente conciliar o mundo, em face de duas ameaças fundamentais: a proliferação nuclear e a fome, quando a fronteira da pobreza passou para norte do Mediterrâneo, que poderes emergentes, como a China, se mostram a caminho de juntarem o poder militar ao poder financeiro.”
“Sem solidariedade assumida no Atlântico, em que os EUA têm não uma retaguarda, mas uma participação, a decadência do ocidente não será facilmente detida. Sabemos que o Pacífico lhe é importante, mas o Atlântico faz parte da urgência. Somos todos ocidentais. Em que circunstâncias num mundo tão ameaçado pela ordem como pela desordem: – considerados pelo antigo terceiro mundo como os maiores agressores dos tempos modernos, salientando-se o turbilhão muçulmano; com o Ocidente a viver uma espécie de Outono, com a unidade europeia sofrendo os conflitos entre os deveres jurídicos e a segurança, para a qual nenhum 0rçamento tem reservas; Com o credo do mercado a substituir o credo dos valores, e com a velha hierarquia das potências desatualizada pela mudança da circunstância mundial, e sem realmente por em vigor a igualdade das nações, e os princípios dom mundo único e a Terra, casa comum dos homens; Com mais de metade dos estados da ONU incapazes de responder pelo menos aos desafios da natureza – terramotos, inundações, fome, pestes, e os pobres a morrerem mais cedo; Portugal enfrenta, nesta situação de exógeno, ser dependente agora da União Europeia, mas esta sem conceito estratégico; parece de facto, tarde para os homens e cedo para Deus.”
E Adriano Moreira encerra a conferência com uma recomendação: “A participação na tarefa de Conciliar o Mundo obriga a ler o Sermão do Padre António Vieira sobre – Quando?, isto é, quando é que finalmente passamos à ação, neste globo ameaçado pela ordem violada, e pela desordem crescente, para que, se é tarde para o homem, deixe de ser cedo para Deus.”.

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